
Lisboa
Data 26/02/2007 23:30:00 | Tópico: Prosas Poéticas
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Lisboa, minha Lisboa; De ti nasci para a vida. Em ti vivi e vivo, constantemente, Sonhos vários, de cores diversas; Luzes na escuridão, De uma noite tal, inequívoca, Onde percorro ruas e becos De fina e requintada loucura, e Por momentos me perco na tua história. Olho à volta o recorte dos telhados E a longevidade de janelas, agora fechadas, Perdidas no tempo e na identidade De uma cidade de trato forte e consequente.
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Do Castelo avisto o Tejo. Em ondulações permanentes Reflecte a luz de um sol, que No dia seguinte será o mesmo sol, e De noite, transmite a penumbra de uma Semi-lua, rasgando o céu que me seduz. Barcos cruzam entre si desenhos De uma linearidade subtil, e Onde, por breves instantes, Uma gaivota mergulha na busca de sustento. Como me cativa esta sequência de atitudes Traduzida na melancolia dos mesmos passos, dia após dia, E que agora contemplo, para entender.
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Terra de romantismos e outros ismos; Onde, de eléctrico, percorro os carris De uma cultura a cada esquina, Invadida pelo olhar do poeta adormecido, Ao dedilhar o livro da introspecção. Terra de Negreiros, de Pessoa, e minha também, Por onde me perco a cada dia Seduzido pela poesia que escuto aqui e ali, e De onde bebo o dom de existir. Lisboa que transmites sem sossego Palpitar das palavras ícones De uma geração literária influente Nas minhas humildes preces a ti.
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Do algeroz cai a água Que um dia hei-de beber; As varandas, com flores, dão cheiro À cidade que fotografo. Revelo o concreto da realidade abstracta, e Aí me insiro, por paixão, por gosto próprio. Lisboa não se dissocia de mim; eu dela nem pensar. Conheço a todo o custo, os caminhos que Compõem a tela citadina, e onde inconsciente, Me perco de tantas vezes os percorrer. Paro, por mero acaso, naquele beco recôndito; Odor reconfortante identifica a sardinha que, Vendida pela varina, assa no braseiro.
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Ao oriente me chego. Passeio por jardins onde me conformo, e Calculo, por breves raciocínios, O restritivo específico da tua espécie. A tua existência, no tempo, efectiva, Demonstra a evolução contínua Da história que passa nas tuas ruas, e Todos pisam sem importância. Povo ignóbil, este, que saqueia o teu espaço Acomodando a sua inteligência, e Não evoluir a cultura e o fado, que De ti faz parte, E lhes transcende.
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Transito para ocidente, Onde aglutino a razão do meu ser, do meu existir, Vislumbrando o ocaso do Sol que amanhã continuará a ser o mesmo, e Onde Lisboa ocupará o mesmo lugar. Mude-se o fado ou não, Os pregões continuarão; o ímpeto bairrista também. Vou acreditar que a nós, alfacinhas, te confinas. Sendo a todo o momento, O Tejo que te refresca e Te garante, com o passar contínuo do tempo, A jovialidade com que encaras as gerações que De ti usufruem e assimilam o teu crer.
25 de Janeiro de 2003
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