
O timoneiro perdido
Data 07/06/2008 13:52:45 | Tópico: Textos -> Natal
| Era uma vez uma mulher que tinha dentro dela uma menina. A menina queria ser mãe e esposa, respeitada e viver feliz na sua casa de sonhos rodeada de filhos e amor. A mulher era viciada em CSI e ansiava afecto, compreensão, partilha. Tinha o grito calado na garganta dos segredos que não revelava, das revoltas que em silêncio acumulava. Vivia ainda de outros vícios como o do jogo das soluções. Jogava tão constantemente que desenvolveu reflexo condicionado procurando respostas antes das questões serem colocadas. Analisava toda a informação que lhe caía do tecto e unia peças de puzzles que saltavam dos armários abertos à sua frente. A menina vivia angustiada pela culpa que sentia pelos pais discutirem incessantemente, “será que o pai berrou com a mãe porque eu não comi o arroz?…” A mulher procurava sem encontrar, o seu cavaleiro alado capaz de a fazer sentir amada, desejada, admirada, confiante e única musa. Precisava de se sentir em segurança de afectos para soltar os seus mais íntimos desejos e partilhá-los a convite por inteiro. Procurava um amor maior que tudo, que pudesse viver livre de preconceitos, de segredos ocultos, preso pela partilha de fetiches ao desejo. Nessa procura ofereceu-se pelo Natal coberta de ouro, incenso e mirra a um timoneiro que não foi capaz de segurar o leme firme, nem de a navegar intuitivamente. Enquanto as reservas não se esgotaram viveu na ilusão do sonho realizado. Mas a rota que desenhou no seu mapa de soluções, entrou mar revolto adentro virando o barco que quebrado se enterrou no lodo, após largar timoneiro numa onda. A menina também procurava…Procurava peças de legos que se encaixassem perfeitamente formando uma peça única, coesa e inquebrável perante a miséria do mundo.
Nem menina nem mulher conseguiram atingir objectivos… Por enquanto!... Partiram vestidas de verde rumo a outros mares mais calmos a bordo de uma canoa.
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