Deixem-nos pensar

Data 05/04/2025 12:19:27 | Tópico: Poemas

Eu nunca tive fome,
a que se vive de letra grande.
Dá-me ter a sede
alheia
e o sabor a que as duas, muito juntas,
se odeia
e fazemos nascer as perguntas
num universo que se expande.


Eu sempre fui de férias,
nunca padeci de misérias;
as dores que me doeram não eram minhas,
outras eram;
da doença que não se cura porque não
se trata,
da tortura que, por acaso, mata
e gera orfandade.


Pode-se dizer que me calha o privilégio,
que me trabalha um lado régio;
nunca passei por uma guerra,
as batalhas comezinhas são minhas;
nunca
chorei a morte,
tenho fugido a sete pés a essa sorte,
sei que não sairei da terra.


Tenho o direito, muitas vezes torto,
de me lamentar pelos demais,
de gritar pelo morto
e me irritar pela injustiça, pelos desiguais;
e
nunca me dar por contente,
seguir pelo caminho do demente
sozinho.


Tenho vivido a vida dos livros
que li,
as angústias dos jornais e das revistas
tantas vezes.
Contam-se por meses,
segundos de sufoco
em que estive louco,
e ri no sonho em que somos todos livres.


Uso o singular, mas sou plural;
aprendi o bem sendo capaz de todo o mal
e de subversão,
de revolta.
Chamem-me de revolução
que se solta
quando se sente presa,
é essa, a minha maior riqueza.


Não me impeçam de sentir o que sinto
na teoria,
a ferida em carne e osso
as verdades que minto
até ao pescoço
e à poesia.
Esta vontade indómita, devem ma deixar:
O pensar.



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