Trem Azul

Data 23/03/2025 23:34:05 | Tópico: Poemas

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As palavras torturantes, partidas em sílabas, instam sair
Para se deitarem no papel, seu branco leito que as almeja
As ideias se amontoam como insetos no ventre da noite
Velhos versos qual casas mutiladas na sombra dos olmos
Cruzar portas abertas, dar-lhes as costas e seguir adiante
Então, sentar-se qual o cão que aguarda o dono ausente
E desse olhar de onde vim compreender, por fim, a vida
Os sonhos postergados na memória qual velha fotografia
Clamam, escandalosamente, a retomada de seu caminho
Fomos amantes solitários dispersos por atalhos na cidade
Uma aventura iniciada no abraço até as bocas de volúpia
Na gaveta da aparador, cartas que foram a raiz de tudo
Sementes inquietas de papel que inventaram este poeta
Sonhos de tinta, a lembrança que viestes com o outono
E compartilhamos a mesa, os gestos e também angústias
Dia após dia, da varanda assistíamos o balé das nuvens
Mas o destino trouxe o chamado de um lugar distante
Na penumbra dos dias que anunciaram a minha partida
Choravas como chora o mar nas madrugadas à beira-mar
Da janela, via-se o trem azul pronto para última viagem
Então cruzei um abismo feito de silêncio, apagaste a luz
Restou uma parda silhueta do local onde fui mais feliz
Afeiçoei-me à dor, almejo que já ligues a luz sem chorar



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