
Olhar Cego nº 36
Data 01/10/2024 17:31:49 | Tópico: Poemas
| [Este texto não pertence à Administração. Trata-se de uma colaboração de um Luso-Poeta, que participou de forma anónima no jogo "Olhar Cego". No final, revelaremos a sua identidade. Convidamos os utilizadores a pontuar e a comentar o texto à vontade, como fazem com qualquer outro.]
ofício dos egressos
já vivi de cânticos e vinho novo do torso dançante de uma hebreia e de um escapulário de esperança
era o tempo da profecia e dos sismos
mas a solenidade do outono encontrou-nos despidos sob as figueiras e viu o nosso norte e coagiu-nos à fuga tocados a sinais
era o tempo do cativeiro e do exílio
segundo a lei habitámos a câmara ardente que deita dia sim dia sim para um horizonte de têmporas e cantochão onde antes só se encapelava o estuário das nossas bocas
cruzávamo-nos uma e outra vez e desdenhávamos do engenho que se entrega a outros de menos conta
nunca aprendemos a descoser a sintaxe e a pontear rimas que nos perdêssemos pelo rigor mortis não por destoarmos no coro dominical
certa noite cingimos a pele com braçais de luto e contemplámos uma vez mais as linhas de fogo que nascem e morrem com o vento shamal
eram as vozes que nos amortalhavam para o deserto
era o tempo do abandono e da entrega
não mais nos trago comigo versos são toda a nossa herança mas quando por saudade repito esconjuros para despertar a caligrafia da memória é inevitável perguntar qual será a razão para a mais longa palavra da nossa língua continuar a ser uma doença
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