Na boca de cena

Data 13/09/2024 16:15:31 | Tópico: Poemas

Na plateia.
Endeusados, os olhos.
Esbugalhados.
Bocas desmanchadas.
Rasgadas como aves esvoaçadas.



Na boca de cena.
Há uma mulher.


De boca graúda.
Toda por inteiro.
Pintada.
Da carne em sopro.

Rasga o momento.
Com palavras curtas.
E com silêncio
em largura.

Luas e sóis.
Iluminam as máscaras.
Miradouros.
De prosa e de poemas.

Com os dedos nas ancas.
Meretriz de alpendre.
De ser o mundo todo
e de não ser o mundo
de ninguém.

Teatral.
Conta e canta.
Espinhos e levantes.
Pecados e vaidades.


Flores com cores varadas.
Plumas e ramos do tempo.
Saem das arcas platinadas.

Taças de licor.
Boquilhas.
Cigarrilha de ponta avermelhada.
São vícios de vanguarda.

Com o trejeito da boca.
Cai a lágrima alada.
É a inocência.
De pessoa em liberdade.

Com as brumas do flabelo.
Tece um voto a Apolónia.
Com a metáfora.
Ateia-se-lhe o corpo.
Acende-se como magnólia.

Na boca de cena.
Há sede da seda.
Da palavra.
Sedenta e sedosa.
Sem segredo.
Com ilusão fugosa.




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