
A indústria da seca
Data 13/06/2024 14:16:03 | Tópico: Poemas
| Na minha aldeia A coisa está feia por falta de água, Da água que não falta nesse chão. Aqui a caminhada deixa o povo na mão De quem pinta e borda, deita e rola Em cima do povo, que assim precisa de esmola.
Esse alçapão parece de espuma de sabão, Mas é duro como pedra E dura tanto que me quebra.
Se cavar o chão a água vem pra mão, Com a água na mão vem o pão, Com o pão vai o problema, Vem a solução para quem sofre. Mas solucionar não é a melhor opção Na visão de quem tem um cofre.
Até entendo que o dono de funerária fique alegre com a morte, O mecânico com o motorista em má sorte, O médico com o paciente... Mas a indústria da seca é diferente. Ela deixa o homem sem pernas Para que a festa da casa grande seja eterna. Ela não apenas lucra com a desgraça alheia. Ela impede que o homem se desamarre da correia.
Quando o povo está a morrer de fome e de sede, Certos socorristas formam uma rede Que fica com o que vem da distribuição: O cabresto, o curral, o mercado, a eleição...
A seca seca a esperança, Que murcha e estrebucha Cercada pelos que não querem mudança. A fome que consome Serve de instrumento Para o lobisomem fazer o nome.
|
|