
Lunático
Data 08/06/2023 16:57:48 | Tópico: Poemas -> Góticos
| Ó louca lua Desnuda e gélida, O que me contas Nesta noite tétrica?
Que um dia Estes corpos Mortos e frios Foram vidas elétricas?
Que estas bocas Silentes da afasia Um dia foram Coro e algaravia?
Ó louca lua Desnuda e pétrea, Um dia foste Lauta e profética!
Inspiraste, Insana e frenética, O coração dos ascetas, Dos abades e dos poetas
E foste o álibi De todos os criminosos, Daqueles que buscavam Em cismas e milagres O perdão e a eternidade.
Tu me aparecias Em forma de mulher Com as vestes rasgadas, Um seio e o púbis à mostra Numa solitária estrada Em que, iníqua, tu brilhavas.
E por mim acompanhada Nada me dizias Ou me indagavas, Apenas o meu leito Tu corrompias Na madrugada.
Eu vinha do mar. Era onde eu te via, Mas não onde te tinha, Pois era num lupanar Em noites frias Que te possuía Dos céus despregada.
Ó santa pura e profana, É por ti que o herege Peca e exclama!
Tu que dos céus Preparaste as insídias, Rasgaste as insígnias E todos os véus!
E nua, sempre nua Como uma hetaíra No firmamento Da Grécia antiga
Ou noctívaga E sonâmbula Nos sofrimento Dos que amam Na mais escura treva Habitada por corvos, Templos e altares Em ruínas,
Vagas, deambulas Por todos os corações Em festa ou em luto De quem caminha Por átrios, câmaras e colunas Ou dorme debaixo dos viadutos.
Oh, tu que foste A perversão e o vício Dos corações apaixonados, Errantes e perdidos
E te derramaste Nas noites e vales De brilhantes catadupas E telúricos tropismos.
Oh, tu que foste A breve loucura No torturado espírito De todos os arrependidos,
Ó louca, nua, Impassível e gélida, Tu me torturas, Tu me torturas Há incontáveis eras!
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