
Por que amo essa mulher
Data 07/05/2023 07:58:13 | Tópico: Prosas Poéticas
|
Porque ao vagar pela Paulista, quase à altura da Augusta, a vi esconder o rosto atrás do leque e me fitar por entre os repetidos movimentos no mesmo instante em que eu pressentia uma canção romântica, inaudita, talvez "Aline", e senti-me numa daquelas ruas chiques de Manhattan que Paulo Francis decantava em prosa e verso. Levei comigo seu olhar penetrante duma virgem dentro dum cubículo de vidro transparente que se insinuava só pra mim no burburinho duma rua de Amsterdam, a Veneza do Norte.
Porque levei comigo a rara fantasia difícil de dissipar-se como o nevoeiro londrino em que, andando ao acaso, de repente, se esbarra numa mulher, convida-a para um café com chantilly, e descobre que ela, além de simpática, é leitora de Poe, Pessoa, Mario Quintana, Camus, etc., e chora quando ouve "As rosas não falam", de Cartola. Aí ela diz adeus, chama um táxi que se perde na distância da avenida com a cabeça virada como se quisesse dizer algo mais com o mesmo olhar, talvez, de um fragmento esperançoso, entorpecedor desde quando passei à sua frente.
Por que amo essa mulher enigmática, magnética e extra-sensorial que, numa plataforma dum cais de Lisboa, num ato impulsivo e frenético, descalçaria seus sapatos de salto agulha e mergulharia no mar pra alcançar a embarcação na qual eu me encontrasse sem perder o lenço branco, amassado em sua cerrada destra, só pra dar-me o último aceno até que eu dormisse o sono profundo... mas que, num último ato de sobrevida, eu, muito louco, saísse do quarto com a história de "Romeu e Julieta" ao revés, debaixo do braço, e fitasse, pela claraboia, nos meus ângulos de visão possíveis, todos os astros... e...nesse epílogo vital, eu não me permitisse deixar de sonhar pra encontrá-la às gargalhadas, mostrando-me o céu, o céu de sua boca, o céu duma aeronave em voo constante que jamais pousasse...
Por que amo essa mulher que, num olhar, leva-me a tantos lugares de luares cândidos sobre paraísos mutantes, extravagantes, de choros proibidos... Por que fui me distanciando no vaivém da rua com o olhar retro ao visgo que me prendeu por não vê-la estranha... Por que, num instante, me apaixonei sem nem ao menos escutar sua voz... Porque, talvez, meu amor resida numa ilha inacessível, defronte ao meu olhar...e a vida toda senti-me preso, desencorajado para abordá-la...
Por que amo essa mulher até o deslimite do que penso em lhe oferecer desde agora... até estarmos numa varanda contemplando o vazio e, já velhinhos, ela iniciar a conversa com a seguinte frase: "Porque ao vagar pela Paulista, quase na altura da Augusta, o vi , ali, acompanhando-me com os olhos...eu me abanando despreocupada e tão carente... e, num segundo, meus horizontes abriram-se quando meu olhar e meu pensamento ficaram contigo..."
***
|
|