
O teatro
Data 27/03/2023 22:17:34 | Tópico: Poemas
| "O actor acende a boca. Depois, os cabelos. Finge as suas caras nas poças interiores. O actor põe e tira a cabeça de búfalo. De veado. De rinoceronte. Põe flores nos cornos. ninguém ama tão desalmadamente como o actor. O actor acende os pés e as mãos. Fala devagar. Parece que se difunde aos bocados. Bocado estrela. Bocado janela para fora. Outro bocado gruta para dentro. O c toma as coisas para deitar fogo ao pequeno talento humano. O actor estala como sal queimado. (...) Ninguém ama tão publicamente como o actor. Como o secreto acctor. Em estado de graça. Em compacto estado de pureza. O actor ama em ação de estrela. Ação de mímica. O actor é um tenebroso recolhimento de onde brota a pantomima. O actor vê aparecer a manhã sobre a cama. Vê a cobra entre as pernas. O actor vê fulminantemente como é puro. Ninguém ama o teatro essencial como o actor. Como a essência do amor do actor. O teatro geral. O actor em estado geral de graça."
Herberto Helder, em Poemacto III
Dia Mundial do Teatro.
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