
O Poema Está No Cio
Data 20/03/2023 19:16:45 | Tópico: Poemas
| O poema está no cio Esperando ser gestado Introduza um vocábulo, Por entre o ventre vazio, Que terás um dicionário.
Quem irá fecunda-lo? Quem irá percebe-lo? Desenroles o novelo Que terás vocabulário.
E será tempo de festa Na espera deste filho Será ele recebido Com carinho merecido?
E o fruto temporão Pela mão será eterno No papel, suor paterno Na labuta pelo pão.
E o poema será lido Se estiveres só num quarto Sentirás o desabafo Pois quem faz um poema Está salvando um afogado*.
Um poema é poema Só quando poema lido Mesmo que pelo inimigo Mesmo que fora do tema.
Mesmo um meta-poema, (Que diria o UmaV ?) Tem direito de nascer Não há nisso um problema.
E será rio de risos Se espremendo entres os dentes Uma banda dos contentes** Combatentes em delírios.
E o poema irá crescido Vadiando no universo Sem saber que os seus versos Vai além do infinito.
Nascerá sem ter um fim Com louvor ou impropérios Independe de Rogérios' De Ricardos ou Benjamins.
Nascerá em vários cantos Na Sibéria ou Portugal Filho meu, da Mary Santos, Do Odair ou do Abissal.
O poema descoberto Sem cueiro ou avental Não carrega em si o mal Nem poema do Alberto.
O poema natimorto Ou poema problema Não importa o esquema Só importa o retorno.
Poema só não é poema Quando estado em dicionário. E tu trouxestes as chaves?*** Esperas tu um corolário?
E o poema vem bebê Vem até de pé quebrado Vem mamando em dicionário Para mais forte crescer
Um poema vem beber Cheio de cacofonia Isento de poesia No crescer do dia a dia Pra tentar sobreviver.
E virá filho de luz Sem temer os comentários Dos escribas literários Do céu branco entre os azuis.
O poema está no cio Use a pena que puder Pois a pena é o pênis E o papel é a... mulher!
* Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.
Mario Quintana
** Álbum de Erasmos Carlos, de 1976.
*** Procura da Poesia, Poema de Carlos Drummond de Andrade
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