
CORDEL DO ANDARILHO E SUA TRISTEZA
Data 20/09/2022 20:22:23 | Tópico: Poemas
| CORDEL DO ANDARILHO E SUA TRISTEZA
Andava légua e meia pela estrada Quando fui encontrar minha tristeza. Aproximando d’outra encruzilhada, M’esperava, anciã, de vela acesa. Sozinha, bem no meio do jornada, M’envolveu n’um instante de clareza:
– “Por aqui seguirás para a distância, Andando como sempre caminhaste. Por ali, tornarás com a tua ânsia De partir se ficares onde amaste Se, amando, te ressente tanta errância Que te inquieta onde quer que tu andaste.”
— “Mas, por quem sois, tristíssima senhora, Deixai-me que caminhe o meu caminho! Nem prazer nem dor mais me apavora, Mais do que o ter-de ser sempre sozinho! Permiti que ame minha amada agora E depois partir livre passarinho…
A senhora tristeza, no entretanto, Se calou encarando esse andarilho Com um olhar profundo de acalanto Como se, docemente, para um filho Olhasse entre sorriso e quase pranto Que s’embarga no olhar de maior brilho:
— “Andarilho que amaste uma mulher, Recorda-te que andar é quem tu és! Se deixas teu caminho a quem vier Tu perderás o chão sob os teus pés… Para não seres mais do que qualquer, É querer a alegria que o revés.
“Se amaste as longitudes dos desertos E as longas soledades silenciosas, Admirado nas dores por expertos Por fim te recolheste às venturosas Que te leem os relatos descobertos E te invejam a amada imersa em rosas!
Quedo absorto e admirado das palavras Com que a tristeza a mim s’esclareceu. Poesia, a mais incerta d’entre as lavras Dê paga pelo verso que m’escreveu! Diz a Tristeza: Tu, que n’alma escalavras, Força ainda mais fundo teu cinzel!
Betim - 20 09 2022
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