A Carta Que Nunca Te Escrevi ou a Simples Confissão do Meu Maior Crime (Parte IV)

Data 01/05/2008 22:28:35 | Tópico: Prosas Poéticas

Olho em redor e não reconheço nada que tenha feito, se calhar por isso mesmo... nunca fiz nada que ficasse para depois apreciar, ou se o fiz dei a alguém ou perdi, como tudo nesta ressaca de vida.
Ainda se ao menos tu me quisesses fazer feliz! Mas como? Nem sabes o que sinto por ti... e vejo que também não te interesso muito, senão até me dirias qualquer coisita, ou não?
Serás assim tão parecida comigo que até aí nos amamos?
Um de nós, tem de desbloquear esta situação. Ou tu, a rosa que floresce todos os dias no meu pensamento, ou eu... o parvo do costume!
Um de nós, sim! Talvez o melhor é que seja eu, estou tão habituado a levar com os pés. Mas e depois? Se for mais uma vez rejeitado como é que me aguento?
Ajuda-me nesta minha culpa, suaviza-me a tristeza do teu não.
Os passos apressados na velha calçada disforme calam o silêncio e interrompem conversas banais, daquelas que só podemos ter nas esquinas, em noites que não sejam de Lua cheia. Invade-me as narinas o cheiro nauseabundo da pobreza que habita o meu mundo perdido.
Sinto-me invasor no meu próprio espaço, em todos os cantinhos que ocupo, cabisbaixo de ar arrogante e mesquinho, uma amostra de gente que espelha tudo o que me rodeia e que faz de mim o que sou. Consumo letras de jornais velhos, quase tão gastas quanto as minhas rugas, mas cheias de histórias que embora não pretendam também são minhas.
Tento fugir a esta escravidão, ao olhar culpabilizante de quem passa e me ignora, à mão que me dá comer e me chicoteia, ao amigo que se diz irmão e atraiçoa. Quero-me vingar, mas não consigo, mais uma vez a vergonha, aquela igual à das palavras que não te consigo dizer.
Escondo-me em mim, só para não me ver, para não me envergonhar tanto.
A tremedeira que sinto nas pernas engrandece ao passo que leio as notícias actuais dos vespertinos, mortes e mais mortes, um dia chegará a minha vez. Sarcástico este mundo em que nos dispersamos, dá-nos de comer e depois espera que apodreçamos para nos comer a nós. Quanto mal lhe fazemos, quanta cobiça alimentamos.
Da minha parte, como parte de uma raça dominante, que já nada domina, destruo o que posso, mesmo que seja pelo consumo que faço das palavras que escrevo ou que ouço dizer.
Temos tanto ou mais que a simples metade que aproveitamos, o resto é isso mesmo... resto!
E olhas-me assim!


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