
Com papéis nos cabelos
Data 05/12/2021 21:56:59 | Tópico: Poemas
| A noite de inverno vai chegando A meus olhos Com cheiro pobre de Natal nas avenidas. A neve entre chuva miudinha Vai deixando os pés frios E o caminho escorregadio Do que resta em folhas outonais. As chaminés comecam a fabricar Um nevoeiro vago Que embacia a luz dos candeeiros Solitários. E os meus olhos. São 17 horas a bater ao recolher Do último roçar da vertigem Que apressa a noite e o descanso Dos olhos, dos meus olhos contra o tecto duro. Caio de costas e aguardo Que o cobertor agitado sobre o corpo Me ajude a apagar as imagens Que ainda restam da sordidez Que as sombras me sugerem. A meus olhos Tudo à volta é monótono, repetição. Sempre tive A perpectiva de não acordar ali. Serão meus olhos, Nada muda, mas a noite avança Em meus olhos tão parados. A nova claridade num ápice Traz os pardais ao meu beiral Como se Primavera fosse, visão da rua Entre a luz das persianas. Lembro minha mãe de papéis no cabelo Vergada sobre a minha testa Sentada na beira da cama. Eu, fecho os olhos com força, muita força
Sem paciência para me apropriar do mundo. Levanto-me, deixo- me ir, pelo dia escurecido Sobre o mundo que gira Para poupar o combustível do tempo Tempo que não pára nem anda Como que esquecido.
(pergunto agora pela saúde dos meus óculos)
|
|