
Oráculo
Data 08/02/2007 15:17:14 | Tópico: Textos
| Visto o traje, de gala Que há tempos habitava, ao fundo No fim do armário, sem fala. Um tanto pálido, cinza Ao invés do preto, prepotente diria Com nada mais combina. A camisa não se dá a gola A gravata não se dá ao nó. O punho não se dá ao braço. Havia tanto tempo, que não se viam Que percebo, se estranham. Mas ainda assim vou Creio que nesta festa Algo, que me seja belo talvez, pode mudar Dando-me a motivação Essa, que me falta talvez Para outro terno comprar As luzes pelas ruas vão Todas se acendem, parecem avisar É chegada a hora de ir Saio pelos fundos, não quero marcas no calçado, que me faz a grama molhada Nem surpresas, com que os cachorros Costumam por ali deixar. O carro está limpo, velho, mais limpo Saio então, ansioso para logo ver-te Mas não vou, pressinto O carro decidiu-se enguiçar A roupa no carro se sujou O dedo cortado sangra A chuva para piorar da sinal Os pingos se dão ao chão O ex chão, agora lama, empoça. E vejo que não há muito a ter Torno então a casa, maldito carro! Amanhã o mecânico lhe socorre. Tiro a roupa, jogo-a por sobre a cama O sapato, conspurcado, na porta deixei Sento-me na poltrona da sala Oiço carros na rua a buzinar Dou-me ao trago e bebo. Amargura, dores, sentimentos planam A sala parece rodar, daí então Me esqueço, e fico, cá. Com um sofrer, á latejar Mais uma vez um desejar malogrado Daquilo que fiz, almejei, não deu. Só me resta a nódoa, o sujar. Como sempre, a água não lava A alma descrente se cala É, dizem que a vida é amar...
|
|