Gris

Data 13/10/2020 17:25:12 | Tópico: Poemas

As vertentes antes altivas da serra já não se impõem na paisagem
Tomadas de nuvens gris. Meu pensamento, por isso, paira perdido
Orbitando em vão sobre o eco dos passos, sempre mais distantes
Criei em torno de mim paredes fermentadas de desejo reprimido
Sou ser à espreita. Como o mosto que um dia será maduro vinho
Reconstruir todo silêncio à minha volta e nele me fazer invisível
Como os sinos que dobram, indiferentes, a cada quarto de hora
Tudo é distante e intemporal, meras imagens inglórias no espelho
O que permanece é vazio, cinza, tal um dia que não amanheceu
Nesse abandono gratuito já se fez muitos mortos. Será destino?
Em meu ser um sonho azul desnudo se reergue em meio à chuva
Na busca de mínimos mitos, de uma coleção infinda de abraços
A vida em sua concepção é fumaça ambígua diante das pupilas
Porém a lua é intacta, minha herança, doce farol no teu caminho
Resiste em mim o aroma dos campos, as crinas soltas dos cavalos
Céleres qual vento nas tardes de maio, nos poemas vivos do olvido
Uma lembrança ao poeta Luciano Spagnol, um dos poemas escritos pelas minhas viagens por sua Minas Gerais. (maio/2001)



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