
Poemas no hospício
Data 11/07/2020 17:04:31 | Tópico: Poemas
| Poemas do Hospício
De que vale um vestido mofado no luar de abril?
Estas são as sombras que passam quando despertas?
Brilha a copa das árvores no décimo andar onde moras.
Espero-te numa capa de ouro atrás dos vitrais.
Os dias tocam pianos.
Formigas vermelhas dançam no verde vale.
Anjos embriagados não morrem. Quero
Quero alegrias e anéis de rubi.
Lábios corados e desejos soltos nas mãos. Vestidos bordados e colares no baile dos anjos. Estranho sorrisos lassos sem comunhão.
O tempo deságua em ondas. Ó bendita hora! Orvalham as rosas quando passas.
Bendigo o riso das noites roubadas.
O tempo me olha... Quero ver estrelas antes da aurora.
Ouço as preces dos monges e os queixumes das águas; ouço o voo dos pássaros.
A tarde borbulha em arcos de luz.
-A quem pertence este céu? Por que este véu nesta hora?
Desfaço-me de retratos e lenços sem cores.
Corvos abrem asas, poemas espalham-se.
Caem rosários. Ando farto da poeira nas costas dos santos de pau.
Estou farto do ouro no peito e no pulso dos reis.
Que pecado é este debaixo das nuvens? Silêncio! Sonhos acontecem na alma em apuros.
És andorinha sem rumo após o temporal.
Olhas tua face em espelhos quebrados.
Descansam as fadas no chão coberto de neve.
Lembro-me da última janela fechada para teus olhos.
Curvei-me como se fosse ontem.
Luas levaram longe o sono dos monges
Raios da manhã acenderam o mar. Lancei-me no espaço com olhos fechados.
Meu riso desperta alegrias.
Canto ouvores. Afasto-me dos olhos dos fracos. Num dia manso aves pairam nas portas dos sábios.
Ando farto da faca na carne dura.
Ouço versos soltos nas pedras.
Relâmpagos arrancaram teu falo.
Porque estavas nu?
Os dias
Os dias passam lentos na tua face.
Preciso de fé para seguir nas ondas que levam meu barco.
Apavora-me a fúria do mar.
Passaros deixaram o mundo em silêncio.
Sentida está a minha alma. Longe estou das tuas águas! Coragem! Vamos rir e ser apenas luxo e mais nada.
O que tenho a perder? O rapaz de camisa branca e calça cinza no azul anil de São Paulo? Há hospícios. precipícios.
Os sonhos são fartos. Os vermes se fartam. Roem o estômago cheio.
Hoje vago atrasado na estação do metrô.
Vago vazio sem sono sem asas.
Ouço cantigas medievais após o vinho no cálice da manhã.
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