
TODAS AS PESSOAS
Data 20/04/2020 20:44:58 | Tópico: Sonetos
| TODAS AS PESSOAS
singular primeira pessoa
O POETA
— ‘Vê, musa, quanto brilha este olhar ao te olhar…! Cada olho feito um círio em vão delírio tenho. Eu por ti, minha bela, uma vez mais eu venho Na mentira do amor à vera acreditar.’
‘Não poderia o actor personagem se outrar?… Nem o artista mais belo haver-se em seu desenho?… Eu, poeta, que em cantar tão-só a ti m’empenho, Buscando ser amado, amador sou a amar…’
‘Pois sim, musa, o poetar tem suas liberdades. Tu contra o arqueiro a flecha, entanto, desferiras Ao me ferires tolo e todo de saudades.’
‘Apura o ouvido, escuta: Uns acordes de liras!! Ou mentiras que o amor faz a mor das verdades, Ou senão, em verdade, a mais bela das mentiras.’
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singular segunda pessoa
A MUSA
— “Mas que liras, poeta? Acaso tu deliras? Tudo o que escuto são tuas insanidades Com que, inoportuno, aos ouvidos invades, Dizendo-te ferido à flecha de minhas miras…”
“Acorda, poeta, e não verás veras mentiras. Pela Estética, o artista haja como verdades: No engenho, a busca esteta à originalidades; Na arte, a veracidade a quanto tu te inspiras.”
“Chamas-me musa ou luz que brilha em teu olhar, Não penetras, porém, as trevas que contenho, Nas angústias de quem procura m’encantar.”
“Canta, poeta, e escuta as verdades que tenho: Belas mentiras tua arte pode contar, Mas sabes pouco ou nada às brumas d’onde venho.”
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singular terceira pessoa
O NARRADOR
O poeta à musa canta e encanta co’o cantar Na luz em seu olhar, dá ao canto arte e engenho… Crepita pelo peito um abrasado lenho, Enquanto sente o ardor da musa a lhe queimar.
A musa ao poeta conta aonde o amor vai dar. Devendo a arte à verdade ainda mais empenho. Ser personagem ou mais belo no seu desenho, À vera é ser mentira, ‘inda que bela ao olhar.
O poeta lança a flecha às vastas soledades, Tentando haver a musa entre belas mentiras, Para lhe afagar o ego a ver suas vaidades.
A musa torna a flecha e o faz arder em piras, Ferindo-o, ela fez d’amor e o amador verdades, Ao pôr o poeta a ouvir uns acordes de liras…
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plural primeira pessoa
O POETA E A MUSA
— ‘Ora m’escusa, musa: O delírio é bem-querer, Na poesia há verdade apesar do erro humano. Escuto soar a lira além por não sem dano Co’a mais bela mentira a verdade dizer.’
— “Pois sim, poeta, verdade em teu canto uso ver, Escuto em cada verso as liras, salvo engano, Longe ao lugar-comum de nosso quotidiano: As liras que ouves tu outros possam te ler.”
— ’’’Nós outros, poeta e musa, ousamos na obra lida Como fôssemos um: Dois entes interiores Pessoa unificada onde arte produzida.’’’
’’’Aos outros somos nós, à vera, tão melhores Se, e somente se, artista e arte por toda a vida, Oferecida em verso a improváveis leitores.’’’
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plural segunda pessoa
AOS LEITORES
— ’’’A vós, leitores, eis a cantar-vos amores O poeta que, cantando a musa em tanta lida, Por vossos corações busca a canção sentida E serdes vós também na poesia amadores.’’’
’’’Lestes após da musa ao poeta os desprimores… A musa se vos faz poesia quando lida, O poeta da poesia em vós faz sua vida; E a historieta segue aos vossos vãos pendores.’’’
’’’Vós outros vedes quanto há o poeta por plano: Ao cantar sua musa aos outros fazer ver Poesia que ilumine, enfim, o ser humano…’’’
‘’’Nós vos vemos, porém, o poeta se perder: Onde a flecha que o fere, em todo canto ufano, A musa, qual Alma e Amor, o poeta ao escrever.’’’
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plural terceira pessoa
O AMOR E A ALMA
O filho da Beleza em amor foi se perder, Depois de vão causar a tantos tanto dano. Cai pela própria flecha ali, em desengano, Aos pés de Alma, então sem mais poder.
Mais bela que a Beleza, à Alma fora querer, D’ela se aproximou com ardiloso plano, Cerca, o acertou, porém, o querer mais insano: Flecha que despertada a Alma lhe fere o ser.
Torna-se um amador o Amor à dor havida Que por fado soia haver mais dissabores, Pela alma cuja a carne em amor malferida.
E embora aos corações suscite maus amores, Fere-o Alma para lhe pôr n’alma a dor sentida, E à ferida d’amor Amor sentir as dores.
Betim — 18 04 1994
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