
POR ESCRITO
Data 06/02/2020 18:35:08 | Tópico: Poemas
| POR ESCRITO
Absorto pelo afã de fazer versos Não cuido de passar a pão e água, Ainda a revisar papéis dispersos.
Igual um alquimista em sua frágua, Eu fujo à companhia dos demais A purificar d'alma toda a mágoa.
Não por me haver melhor!… De mais a mais, O Olvido nos alcança tudo e todos E a morte quando vem nos faz iguais.
O certo é que busquei de tantos modos Fazer sorrir-me a musa desvairada, Que cai em esparrelas mais engodos…
De saída eu vi má minha jornada Ao preferir as rimas ao dinheiro, Ocupado em poetar por quase nada.
De facto, por retorno financeiro Ninguém escreveria uma só linha! Visto poeta ser poeta o tempo inteiro…
Penso não ser alguma coisa minha Isso de procurar sonoridade Que a Poesia da Música avizinha.
Gastei em escrever a mocidade N'aquela indiferença franciscana Em face da riqueza e da vaidade.
Demorei a entender a luz profana E ver que Deus, se existe, bem s'esconde Ao longo da sangrenta História humana.
Deveras, sem saber quando nem onde Depois de às soledades inquirir Apenas o silêncio me responde…
Às voltas co'as quimeras do porvir, Deixo o transcendental como mistério, Sem mais especular seu existir.
Ainda que entre os meus passe por sério Muitos há que por falho me tomem Sempre lhes tolerando o vitupério…
Minhas provocações bem os consomem: -- "Sob Deus, ao homem é mais condenável, Ir matar um homem ou amar um homem?" --
Vê-se porquê sou tão pouco vendável… Contudo, eu me divirto p'ra valer Vendo escandalizar-se algum notável!
Concedo que é questão de se temer, De maneira que a gente sempre viva A se matar por medo de morrer.
Mas quando por Deus o homem mais se priva, Corre o risco de nunca cogitar Haver uma existência alternativa.
Aceita inopinado o seu lugar Na altíssima pirâmide que eleva Para outrem mais distante contemplar
E, ainda que profunda a sua treva, Impõe-se o autoengano d'uma crença A aceitar quanto d'ele a vida leva…
Eu, que sou miserável de nascença, Não me iludo co'o mérito dos ricos, Tampouco co'a memória de quem vença.
Porquanto a História escrita em impudicos Floreios que sustém meias verdades De grandes a reinar sobre nanicos.
E embora se conquistem liberdades, Querem nos convencer que estamos vivos Tão-só para fazer-lhes as vontades.
Os poetas são, portanto, inexpressivos N'um mundo onde os homens são medidos Por aquilo que vendem aos altivos.
Visto apenas quererem entretidos, -- Nunca alertas ou mesmo questionados -- Aqueles que às palavras dão ouvidos.
Não mais que multidões de embasbacados Correndo atrás de artistas de artifício Nas indústrias de mídia fabricados.
Nada de vagos poetas cujo ofício Busca obter das palavras os clarões Ao longo d'uma vida de ócio e vício.
De quebra, suscitar vãs reflexões Co'a extrema liberdade dos vadios Que se sabem entregues já aos leões.
Até porque, n'estes dias tão sombrios, Poetar tem parecido inoportuno Àqueles que detém os senhorios.
Se por males alheios não me puno, Tampouco pela fúria do infeliz Que s'entende de déspotas aluno.
Ele sim se apequena com o país, N'uma resignação de vira-latas, Que à sua própria gente mais maldiz.
Já farto de pessoas insensatas, Eu cuido de meus versos ignorando Do estúpido as estúpidas bravatas.
Posso até claudicar de vez em quando E confundir o novo co'o bonito Como quem admirado sai poetando…
Sem embargo, ajo assim porque acredito E, sem sombra de dúvida, reafirmo: --"Sim, eu faço a minha arte por escrito!"
Betim - 05 02 2020
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