
CORDEL DO AMOR QUE SE FOI
Data 12/01/2020 13:20:59 | Tópico: Poemas
| CORDEL DO AMOR QUE SE FOI
- Primeira Parte: ENTREOLHARES Espera... Guarda contigo As águas dos olhos meus N'um último olhar de adeus Um olhar d'amante e amigo Onde encontrarás abrigo Ao levar dos olhos teus O que viveste comigo. Se por ventura lembrares Dos meus olhos a te olhar Me haverás-de recordar D'outros tempos e lugares Entre longos entreolhares Quando ousávamos sonhar A despeito dos azares...
Foram noites; foram dias, Acalentando prazeres Em extremados quereres... Em lânguidas agonias... Gozaste-me as ousadias Sempre com plenos poderes Sobre as minhas fantasias!...
Tu me amaste co'a urgência Com que se amam os famintos De toda entregue aos instintos Que dominam a consciência... Onde o desejo e a violência Se apresentam indistintos Entre imanência e existência! Desde os ombros devassados, Os prazeres prometidos Na carne nua aos sentidos Pela língua degustados... À flor da pele mostrados Para meus olhos perdidos Hão-de ser sempre lembrados.
Tive fome de teus lábios; Tive sede de teus beijos. Tanto quis n'esses lampejos, Que meus olhos menos sábios Sem bússolas ou astrolábios Perdi n'um mar de desejos, Que hoje parecem ressábios...: Este olhar de despedida Que acontece ora entre nós Súbito m'embarga a voz N'uma emoção tão sentida, Que levo por toda a vida. E o que quer que venha após Não muda quanto és querida.
.................................... - Segunda Parte: TÃO PERTO, TÃO LONGE Tantas vezes eu passei Na frente da tua casa!... Meu peito aberto se abrasa: Do amor o ardor apaguei Nas cinzas do que sonhei!... Tantas vezes... Que me arrasa Te perder quanto me dei.
Como esquecer quem ausente Mais presente ‘inda se faz? Como, enfim, estar em paz, Enquanto dentro da gente Um turbilhão inclemente Põe-me a olhar para trás Ao invés de seguir em frente?...
É triste te olhar nos olhos E n’eles me ver menor... Porém, não os ver é pior Do que os espiar por ferrolhos Ou andar como se d’antolhos Nada visse ao meu redor, Senão d’amor os restolhos...
Porque saber-te tão perto Fez más as boas lembranças, Que me trazendo esperanças, Tornou-me o caminho incerto, Sonhando embora desperto, Nas solitárias andanças Pelo meu próprio deserto. Porque saber-te tão minha, Muito embora me deixando, Vem me assombrar vez em quando. Pois se a noite se avizinha, Cogito se estás sozinha Ou mesmo se em mim pensando Meu desejo te adivinha!...
Porque saber-te tão linda A meia hora de distância Apenas m’enchera de ânsia Diante d’uma história finda... Finda, mas que sinto ainda Na minha total errância À espera de tua vinda... Contudo, nossos caminhos Se afastavam, divergentes, Co’os deuses indiferentes A tanto afã por carinhos... Decerto foram mesquinhos Em não nos querer contentes Para deixar-nos sozinhos.
.................................... - Terceira Parte: AOS TEUS OLHOS
Se me fosse permitido Ver por meio dos teus olhos, Quiçá um clarear d’abrolhos Revelasse-me quanto o Olvido Ocultara do acontecido Até o silêncio entreolhos D’um amor enfim perdido... Dá-me os teus olhos p’ra ver Como viste o que não vi! Mostra o que nunca entendi Para de vez t’esquecer Ou simplesmente poder Não ter saudades de ti Nem esperanças manter.
Deixa-me ver como vês; Deixa-me olhar como olhas. Entender tuas escolhas E cotejar teus porquês Ao me negares mercês, Antes que tu te recolhas À distância uma outra vez. Em face de teus motivos, Penso que possa livrar-me Dos apelos de teu charme Que os olhos me têm captivos. Resta esconder-me dos vivos. Ou senão viver ao alarme D’estes teus lábios lascivos... Não fosses do mundo o centro, Cairia por ti de joelhos E embora d’olhos vermelhos, Te veria desde dentro... Mas, se teus olhos adentro, Vejo como por espelhos Os azares que concentro.
Soberbo olhar que m’empedra, Não o rosto: O coração! Receio, ao par da ilusão, Os sós amores de Fedra, Cuja lendária paixão Lembra a do tosco carvão Que diamante se poliedra... De facto, estrelas cadentes Após riscarem o céu, Deixam crateras ao léu Com desastres surpreendentes Que tornam selvas crescentes N’um titânico escarcéu Pedrinhas esplendecentes...
E do mesmo modo o amor Após devastar minh’alma, Levou-me a clareza e a calma Soterrando-me em torpor... Nada há mais em meu favor: Eis quem te houvera a palma, Hoje a teus olhos menor!...
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- Quarta Parte: ESCUSÁVEL
Coisa horrivelmente chata Essas lamúrias de tonto!... Penso ter chegado ao ponto De não ver quão insensata A memória quase ingrata Que te faço no que conto Tanto que a língua desata.
Melhor te pedir escusas E me afastar com meus ais Certo de que amor demais Evoca sombrias musas Entre memórias confusas Dos sonhos tornados reais Até topar com recusas... Perdoa estes ais; perdoa Esta insistência infeliz; Este extremado cariz De exagerada pessoa... Perdoa a enfadonha loa Que nem condigo condiz Nem agradável ressoa.
Perdoa-me a cantilena Que se arrasta aos teus ouvidos... Considera-os qual gemidos D’uma alma que antes serena Mais se agita e s’envenena Face aos beijos já perdidos Em tua mirada amena. Considera-os desatinos D’uma alma tão perturbada, Que uma vez desembargada Fica a especular destinos Onde amores vespertinos Tidos por fava contada Tornem em sonhos ladinos.
Considera-os, entretanto, Amores, que amores são! Acolhe a minha ilusão E mesmo o ardor com que canto Como desabrido encanto Que redescobre a paixão Entre sorrisos e pranto.
Eu assim cuido que sigo Sem perturbar-te o momento Com meu audaz sentimento Buscando em teu colo abrigo. Tudo o que quero contigo É levar-te como alento Do mais doce amor comigo. Sim, porque o amor que se foi É o que sempre será... Sim, este é aquele que há- De me aquecer com um “oi!”... Sim, feito aboio de boi Que me ecoando lá e cá Tangesse o peito que dói.
Sim, porque este amor passado Sempre te faz resplendente. Mesmo que estejas ausente Sempre te sinto ao meu lado. E sim, porque enamorado Eu sempre te tenho em mente: Amor no peito guardado...
Betim – 11 01 2020
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