
TU, O REI
Data 31/12/2019 14:28:57 | Tópico: Poemas
| TU, O REI
E se fosses o rei, e se tu fosses Aquele que, aclamado, nos governa, A mentir para o povo frases doces...?
-- Aquele que virtudes só externa Digno d'excelentíssimos louvores Sob a Sabedoria Sempiterna.
Se fosses o maior entre os maiores, Aquele que d'heróis fora nascido Herdeiro d'esperanças e temores!?
-- Aquele que dos deuses o Escolhido Para mostrar por nós predileção, E em ti teu povo d'outros distinguido.
Se fosses tu o Chefe da Nação, Com que decretos-leis ordenarias Dos grandes e pequenos a visão?
Com que exércitos tu comandarias O anseio contra inválidas cobiças, Estendendo ao redor hegemonias?
Com que armas às massas insubmissas Haverias-de impor tua vontade Ao condenar dos maus as injustiças?
Com que realizações prosperidade Todo o reino contigo gozaria Reunido sob a tua autoridade?
Com que fausto, opulência e fidalguia A corte dos notáveis mais brilhantes Sempre em tua saúde brindaria?
Se fosses tão amado que os errantes, Ousando questionar-te a liderança, Quedassem reduzidos a inflamantes...
Se, ao merecer de todos a confiança, Honrasses mais o cargo com conquistas, E não, antes de morto, uma lembrança...
Se, cercado de célebres artistas, D'uma época dourada pela glória Deixasses boquiabertos teus cronistas!
Talvez tanta grandeza meritória Fizesse que, embriagados de sucesso. Elevassem teu nome para a História.
Talvez, atravessando sem tropeço A estrada do poder, possam julgar-te Seres um vencedor desde o começo.
E que ao sobrelevar teu estandarte, Mesmo os senhores bélicos mais pálidos Proclamem teu valor por toda a parte!
Mesmo estes, que das guerras vêm inválidos, Deixando a juventude nas batalhas, Se aprumem respeitosos mesmo esquálidos...
Levantam-se a aplaudir as tuas falhas E urrem a tua alcunha como lema! Mesmos os já revestidos de mortalhas
Façam te recordar o forte emblema, Quando em face dos teus vãos inimigos Lhes leve todo o horror em hora extrema.
Mesmo tantos vivendo sem abrigos Acuados pela fome e pela peste Evocassem-te o nome nos perigos.
Mesmo aqueles que alhures expuseste E esmagaste sem ver em tua alteza Somente a te mostrares inconteste.
Mesmo os demais reis da redondeza Respeitosos, ouvissem-te o clamor, Qual fosses de teu reino fortaleza.
Todos, sem exceção, em teu favor Te fizessem maior em cada grei E por eles eleito imperador!
Ou se em verdade fosses pobre rei D'um enclave onde, déspota absoluto, Tão-só tua vontade fosse lei!
Vassalo de vassalos, diminuto Castelão cujo feudo teus senhores T'esquecessem até o contributo...
Se tu fosses dos reis um dos menores... Que sequer como rei reconhecido Fosses por quem exploras sem pudores.
Se não mais que um tirano esclarecido, Que entre cegos tem olhos de ver Apenas p'ra tomar do desvalido...
Se não mais que um escravo do poder Que aos seus mais importuna do que manda E nem respeito faz por merecer...
Se não mais que outra alteza veneranda Empenhada em furtar do reino a si Qual fosse um ladrãozinho de quitanda...
Se não mais do que servos para ti Fosse este povo doente e gemebundo Que em vilas de teu reino conheci...
Se, afinal, o pior rei de todo o mundo Fosses tu ao ignorar os teus deveres, E ao legar um país árido e infecundo...
Se, bem ou mal, com máximos poderes Quem súbito um tirano se descobre Sempre soube guardar-se mais haveres...
Grande ou pequeno rei; mais nobre ou pobre, Com certeza em defesa me dirias Que pouco fazes porque pouco o cobre...
Mas se fosses tal rei, nem me darias A chance de ditar contestações Ou reclamar de ti patifarias...
Decerto m'enviarias aos porões Depois que me cortando a longa língua E declarar-me um vil entre os vilões.
Ali, com outros mais postos à míngua, Torturas de deixar em carne viva: Vermelhidão, inchaço, ardor e íngua...
Mas se fosses tal rei, sequer a oitiva De meus males por conta de teus bens Permitirias senão em negativa.
Um rei sem tempo para tais poréns, Tampouco impressionado com coitados Às voltas com biscates e vinténs...
Um rei sem mente para os olvidados Tampouco para os mais despossuídos Que vivem pelo reino despojados...
Mas se fosses tal rei, entre desguidos, Tu não te negarias privilégios, Ainda quando às custas de oprimidos.
Um rei indiferente a modos régios, Grasnando sem decoro e sem decência Contra cortes, senados e colégios...
Um rei indiferente à complacência, Entregue a um hedonismo pleno e cru, A buscar-se senão concupiscência...
E se fosses o rei; se fosses tu A palavra de vida e até de morte, Onde todo o desejo esteja nu.
E se fosses aquele que é mais forte; O que manda e desmanda sobre todos Apenas por que o gozo lhe conforte.
Talvez serias quem de tantos modos Seduziu, aliciou, comprou, vendeu... Com tão falsas promessas, com engodos...
Talvez serias tu, ou talvez eu, Quem com más intenções desfrutaria De quantos o dinheiro corrompeu.
Talvez serias quem da fantasia Houvesse-de gozar a qualquer custo, Lucrando co'a extrema carestia.
E se fosses aquele que, sem susto, Fruísse tanto luxos que luxúrias, Ainda que passando por injusto.
Talvez serias quem d'entre penúrias Arrancasse mais gozos do que penas Indiferente a tão iguais lamúrias...
Talvez serias quem a horas amenas Inopinado entrasse pela alcova D'uma virgem vendida a ti apenas...
Talvez serias quem em verso e trova Pudesse ter nos braços d'esta bela Alguma experiência plena e nova
Talvez serias tu, ou talvez ela, Quem sendo corrompida, corrompesse: Natureza que apenas se revela...
Se fosses o ceifeiro; se ela, a messe, Talvez não fosses mal, apenas rude, Como uma flor no campo alguém colhesse.
Em sendo tu o rei, ninguém se ilude: Em códices, papiros, pergaminhos... Hás o nome da bela e a juventude!
Talvez listas de nomes e carinhos, Em sendo tu o rei, maior riqueza Para a inveja dos reis circunvizinhos...
Talvez os privilégios da realeza, Em sendo tu o rei, sejam conquistas A um esteta do sexo e da beleza.
Em sendo tu o rei, tuas artistas São amantes desnudas, concubinas, Tão afáveis ao toque quanto às vistas...
Talvez as liberdades femininas Em teu reino, ou senão em tua alcova, Proclamasses em férias libertinas.
Talvez tua grandeza posta à prova Reafirmasses nas lides amatórias Que em cada nova amante se renova.
Em sendo tu o rei, tuas vitórias Seriam antes dúzias de mulheres A cantar dos amores teus as glórias.
Mas se fosses o rei, tantos misteres Minariam as finanças sem remédio Apenas por fazeres que quiseres.
Talvez porque te fosse imenso o tédio E a graça de ser rei se te perdesse, Sentindo já da morte o negro assédio...
Talvez porque de tudo que acontece Metade seja sonho... E a outra metade Sonho dentro do sonho se parece...
Porque se fosses rei, em realidade, Ainda que tu fosses Salomão, Não serias mais que outra iniquidade.
Porque é ser rei extrema condição D'um poder pelo reino e para si Que só faz de quem reina uma ilusão.
Porque se se diverte aqui e ali Os que realmente reinam, por discretos, São muitos que nas sombras conheci...
Porque decorativos feito objetos Os reis dão rosto e nome ao que somente São mecanismos de ordem obsoletos.
Mas se fosses o rei, provavelmente, Te irias corromper, porque o Poder Nos corrompe absoluta e plenamente.
Irias exigir todo o querer Satisfeito mediante privilégios Que te facultam quanto te aprouver.
Dizendo conceder favores régios, Corromperias a ordem e as normas Mediante inconfessáveis sortilégios…
Tens de tudo e com nada te conformas Como homens que se crêem superiores, Reacionário a políticas reformas.
Nos porões do palácio, mil horrores Por trás da Renascença diletante A distinguir a plebe dos senhores!
E tu, entre despótico e arrogante, Seguidos gabinetes de ministros Irias titerar a todo instante.
Em nome do governo, sem registros, Por ti fariam toda sorte de crime, Sumindo documentos em sinistros.
No empenho de manter forte o regime Mentir, roubar, matar e reprimir Um poviléu que esquálido se oprime.
Reinarias no afã de garantir Tão-só longevidade å Realeza E entre Democracias subsistir.
Unindo Burguesia mais Nobreza Verias uma elite esclarecida, Mas alheia às mazelas da pobreza.
Brilhando pela corte enriquecida, Um astro de satélites rodeado Terias para ti excelsa vida!
Por mil bajuladores celebrado Com infindas lisonjas e louvores Terias a ilusão de ser amado.
Contudo, de beldades os favores, Em meio a canalhices e adultérios, Terias desejando seus amores.
Escândalos seguidos, por deléterios, Ao chamar dos incautos a atenção Para trazer à luz Reais Mistérios…
N’aquele mar de lama, a corrupção, Depois de comprar tantas consciências, Traria para ti condenação!
E se fosses o rei? Dize-me, então!! Serias diferente dos demais? Ou diferente apenas teu brasão??
Usarias do mando e tudo mais No afã de te servires a ti mesmo Ou a riqueza manter dos principais?…
Haverias de sair em guerras a esmo A espalhar fome e peste pelo mundo Enquanto te angustias n’um tenesmo…?
Ao invés de semear solo fecundo, Tu virias saquear o grão alheio, N’um ardil tão estúpido que imundo?!
D’um modo ou d’outro, teu fútil anseio De reinar sobre os mais e ser servido, Usando o povo todo como esteio.
Se fosses tu o rei, reconhecido Serias se findasses co’a Realeza, Não por déspota mais esclarecido.
Irias dar progresso, com certeza, Se uma vez divididos os poderes Estes se vigiassem na grandeza.
Se todos por direitos e deveres Igualmente regidos pelas leis, Sem distinguir aqueles que quiseres!
Se fosses tu o rei, sem novos reis Sobre o poder que ordena a sociedade, Acima de famílias, tribos, greis…
Deverias deixar, em realidade, O trono sem mais trono de uma vez Por todas nos desvãos da Antiguidade!!
Sim, absolutamente! Sem talvez. Jamais outro energúmeno absoluto Além dos que se batem no xadrez!
Nunca mais um regime dissoluto Que institucionalize vãs linhagens, Ao fazer da eugenia um atributo.
Se te fizessem rei, com homenagens Cercariam a ti bem como aos teus, Cubrindo-vos de joias e roupagens
Far-te-iam defensor do próprio Deus, Visto que a religião professada A ti faz conformados os plebeus.
E se não creres mais em quase nada, Farão rezar por ti um povo inteiro A ser-te a iniquidade perdoada!
Terás o paraíso verdadeiro Que é a excelente vida d’Excelências Onde és entre os primeiros o primeiro
Dir-te-iam, por vastíssimas ciências, Que tu és antes símbolo que gente, Para disciplinar as consciências.
Um rosto que tenaz-mas-indulgente Dê ao povo um ideal de humanidade Que o afaste do poder completamente.
Isso porque viver em sociedade Se torna sobretudo a diferença Com quem merece o mando de verdade.
Se te fizessem rei, tua presença Faria dos mais próximos, distintos. Mesmo que a distinção seja pretensa…
Às voltas co’o Poder, por labirintos, Se veem na sociedade como elites: Melhores do que os pobres e os famintos.
Desejam para si outros limites. Não os das leis que regram os demais Mas sim os de etiquetas e convites…
Se te fizessem rei, seriam reais Os que rei te fizeram entre os reis! Seriam os teus donos, nada mais…
Exigiriam de ti uns cinco ou seis Títulos de nobreza e privilégios A ignorarem assim todas as leis.
Desejosos de mais favores régios, Vão se tornando aos poucos intocáveis Em golpes, homicídios, sacrilégios,,,
Seguindo o mau exemplo dos notáveis, Também virão no crime populares E muitos de costumes condenáveis.
Verias pipocar pelos lugares Mais remotos do reino marginais Disseminando crimes aos milhares.
Essa ordem de apartados entre iguais Parece s’estender por todo o povo, Dividindo-o entre as classes sociais.
Da serpente a violência chocava o ovo: Liberais de mudanças sem mudar Ou a mudar para ser velho de novo.
Típico reacionário a conservar Governo e sociedade tais-e-quais Se te fizessem rei para reinar!
Sim, se fosses o rei quão imorais Seriam os costumes d’esta corte, Que farias também a teus iguais?
Quão miseráveis mais a vida e a morte Em face d’uma elite parasita Que insensível ostenta sua sorte?
Quão melhor essa gente se acredita Pelos méritos vãos do vil metal Por trás de sua fala ida e esquisita.
Sim, se fosses o rei quão ilegal Seria a tua corte de notáveis Postada muito acima ao bem e o mal?
Quão mais inacessíveis e implacáveis No exercício das forças de opressão? Milícias para o povo detestáveis!…
Quão mais insustentável a opinião De quem, ao defender a autoridade, Tão-só autoritário em seu sermão?
Tu: Que rei? Que reino? Que verdade? Que poder haverá um titereiro, Que títere também em realidade?
Se tu o rei, embora verdadeiro, Serias outra fábula inventada Para entreter o povo o tempo inteiro.
Serias ferramenta desgastada, Que usurpando do povo o seu poder Entrega-o para gente despeitada!
Se tu o rei, meu Deus! O que fazer? O haver reis em si é excrescência De quem entre fantasmas quer viver!
Vossa Alteza Real, por excelência, Renuncia e convoca o Parlamento A dar ao bem comum obediência!
Se tu o rei, revoga o regimento Que faz de ti e o povo ainda escravos D’um pacto sem real consentimento.
Se cidadãos, não súbdito de bravos, —Submetidos a leis, e tão-somente— Deitando fora os liames mais ignavos…
Não mais títere, sim um rei realmente: De ti mesmo senhor e soberano, Conquistas a grandeza finalmente!
Betim - 31 12 2019
|
|