
IMPROVISO n°6
Data 20/11/2019 11:43:42 | Tópico: Poemas
| IMPROVISO n° 6
1. meus olhos ardem como se não dormisse há dias e dias. pela janela, a luz baça da antemanhã me surpreende: estou em frangalhos!
parece que tudo ao meu redor se desmancha tão-logo eu toco... não há certezas além das misérias quotidianas
tudo isso é poesia e não é
2. basta eu olhar para a frente e a estrada some eu subsisto; eu sub-existo não encontro no meu caos qualquer lição a não ser que é assim mesmo
basta eu olhar para frente e a realidade se dissolve feito chuva se juntando em enxurrada
3. neurose: penso em quem sou e em quem penso que sou mas no instante em que se pensa ser já não se é
ser é não pensar em ser mas eu penso. serei?
ser é imediato; irrefletido refletir sobre si é perder-se de si feito um peixe que escapa dos dedos quanto mais se aperta, mais desliza
4. tomo cuidado para que ninguém m'escute talvez esteja ficando louco talvez esteja ficando sábio talvez nem isso nem aquilo
eu não me dou ouvidos se m'escutasse, eu me calaria
isso não pode ser poesia, mas é
5. em todo caso, eu estou aqui juntando as palavras que espalhei como quem cata os cacos d'um vaso
o resultado é sempre patético...
e é poesia
Betim - 20 11 2019
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