
NA LUZ VERMELHA
Data 15/10/2019 21:56:00 | Tópico: Poemas
| NA LUZ VERMELHA
Tinha dentes amarelos De café e nicotina... Seus olhos azuis, tão belos, Decerto valem castelos, P'lo que retêm na retina... Se antes castanhos cabelos Luzes louras se imagina: Já à cabeça platina Não sem maiores desvelos De mulher não mais menina.
Ela pede uma bebida; Eu acendo seu cigarro. Gargalha, desinibida, N'uma risada comprida: Ela bafora; eu pigarro... Seu decote convida E eu, saliente, lhe agarro Louco por vê-la despida Com uma fúria incontida. O que se mostra bizarro...
À escada do sobe-desce Eu lhe segui pé por pé. Lá, contudo, me aparece Um cornudo que padece Das misérias da má-fé... Diz o outro que s'entristece E que mata e morre até! Mas a dama o desconhece, E logo a malta enlouquece: -- "Pega fogo, cabaré!"
Brilha navalha na mão E voa garrafa no ar! A dama a chorar no chão Parece pedir perdão Ao corno que a quer matar. Mas já rendido o vilão Ela renega o chorar E estapeia um pescoção Na estupefacta feição Co'os dedos a lhe marcar.
-- "Sou puta e filha da puta! Não devo nada a ninguém. Quem me reprova a conduta M'expõe como dissoluta, Dizendo-se homem de bem. Eis o pateta em disputa Por dama alheia, porém... O que ninguém mais refuta É que quem perdera a luta Só resta dizer amém!"
E tapa depois de tapa O corno toma da dama. Como à malta nada escapa, Todos riam à socapa D'aquele pomposo drama... E quanto a mim -- na caçapa A bola da vez da trama -- Vencida a primeira etapa, Ela e eu saímos do mapa Para acabarmos na cama.
Belo Horizonte - 12 10 2019
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