
Hora Púrpura
Data 21/09/2019 21:40:22 | Tópico: Poemas
| HORA PÚRPURA
De bordos vermelhos se recobre Todo o chão da alameda onde o outono Colore de tons púrpura o adro nobre, Pondo em tela um jardim anos sem dono. Já minh'alma captiva se descobre Nas folhas secas, rútilo abandono.
Toda já de flores adornada, Colore a flamboaiã também o chão. Tendo uma seguindo a outra, enfileirada, Se alcatifa um arrás de coroação, Que cobre belamente toda a estrada, Findando das floradas a estação.
Ao largo, um poente sobre as serras Muda todo em lilases o ocidente Enquanto, desvalido entre guerras, Um rouxinol cantando-me eloquente Pela beleza excelsa d'estas terras, Eu m'entrego ao momento tão-somente.
Forte farfalha o vento pelas copas Que em redemoinho agita-lhes as folhas. Mas, aqui e acolá, rubras cachopas D'onde a saúva ávida de escolhas...! Mas mesmo o formigueiro e suas tropas Pouco faz contra púrpuras desfolhas...
Mais longe segue em fuga na alameda O olhar na claridade vesperal... Eu paro enternecido face à queda Da folha a desprender-se em espiral, Pois, tapete vermelho m'envereda Pelas mais ricas horas, afinal.
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Se comigo estivesses, entretanto, Por toda essa beleza sublimada, Eu me consumiria ao teu encanto A ver-te o entardecer pela mirada Luzir também em flamas de acalanto N'uma ternura enfim compartilhada.
Porque tanto mais bela é a beleza Quando pelo cristal do amor é vista! E mais garrida a cor na Natureza Se mirada enamorada lh'a conquista! Amor, nos transformando com agudeza... Mas com que belas artes? Com que artista?!
Tu, minha linda. Tu, somente tu! Só tua companhia luminosa Faz artístico o belo nu e cru. Se me olhas passional e extremosa: Cores de maravilhas ao olhar nu Em gradiente de púrpuras ao rosa!
Se contigo estivesse, esse arrebol Seria, além de belo, prazenteiro... Qual lágrima de fogo, um rubro sol Faria vermelhar o céu inteiro Em teu olhar, sanguíneo tornassol, Onde o gozo anuncia-se sendeiro.
Se contigo estivesse, essa alameda Seria, além de bela, inesquecível... Pois tapete de pétalas; vereda: A teus mimosos pés o andar sensível Onde, guiando cego, nos conceda Amor enfim o encontro irreprimível.
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Mas, como não estás, a solidão Questiona da beleza seu sentido. Sem ti, o olhar se perde sem razão E o entardecer encara comovido: Se contigo estivesse, tal visão D'amor eu viveria enternecido.
Betim – 13 05 2019
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