
O flanelinha e a puta (parte 1) - o flanelinha
Data 29/07/2019 22:58:27 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Por coincidência encontrei os dois no mesmo dia. O flanelinha em frente ao Banco do Brasil Tarde de calor como é costume em Cáceres O sol abrasador no seu fulgor tradicional E lá estava ele para cobrir a moto com um papelão.
Ao sacar o dinheiro no caixa eletrônico Depois de esperar em uma fila enorme Em um banco que mais parece uma lata de sardinha Separei os dois reais para entregar-lhe ao sair. Nem me julguem se isso é certo ou errado Cada um age de acordo com sua consciência.
Ele sorriu para mim ao ver que lhe daria dinheiro Os dentes apodrecidos, mas feliz, As mãos sobre a testa empoeirada e cheia de suor Tentando se livrar do sol que batia em seus olhos. - Obrigado moço – disse ele – você é muito gentil Quase ninguém faz isso.
Olhei para os lados e as pessoas caminhavam freneticamente Cada uma em seus pensamentos Com seus problemas particulares Contas para pagarem, dificuldades para resolverem. - A vida é assim mesmo – disse-lhe. Sorriu.
Poderia ter feito como sempre faço: Subir em minha moto e ir para casa ou trabalho A vida segue seu curso, afinal. Mas, do nada me veio a ideia De chamar aquele homem castigado pela vida Para tomar um suco de laranja. Ele sorriu mais uma vez: - Sério? - Sim. Com uma condição. Você me conta porque está nesta situação. Topou e fomos tomar o suco na lanchonete.
Dei-lhe a liberdade de escolher um salgado Ele comeu dois. Enquanto comia ele me contou a sua biografia: Não tivera oportunidades de estudar Nunca conheceu o pai e a mãe não teve como sustentá-lo. Viveu parte da infância com a avó, Mas ela morreu e ele resolveu viver nas ruas. Usava drogas (só para manter a vício) - A vida não é fácil, moço!
Não posso expressar a sensação que tive ao vê-lo comer o lanche E ele sorria ao contar-me a sua história. - É bem concorrido aqui Tem bastante gente precisando ganhar uns trocados. Então, não resisti a pergunta que me incomodava: - Quanto você consegue tirar com esse trabalho? Ele fez uma cara séria. Pela primeira vez não sorriu. Mas, foi por pouco tempo, Logo abriu um largo sorriso Mostrando os poucos dentes que ainda lhe restava na boca. - 50, 80. Depende do dia e da boa vontade das pessoas. Não sei dizer se isso é muito ou pouco Não fiz a conta para saber quanto dá no final do mês Mas, é uma vida miserável depender dos outros. - Pelo menos não estou roubando. Verdade. Pensei comigo.
Ele me agradeceu pelo lanche Falou-me palavras de agradecimentos e sorriu mais uma vez. Não sei por que, mas senti vontade abraça-lo. Claro que ele se assustou E as pessoas ali na lanchonete também: - Vá com calma – disse ele – não sou gay nem gosto disso. O que fazer? Também não sou gay e nem era essa minha intenção. Vi ele se afastando balbuciando alguma coisa: - Esses engomadinhos! Tudo boiola!
(Continua...)
Poema: Odair José, Poeta Cacerense www.odairpoetacacerense.blogspot.com
|
|