
Ajude-me, Senhor
Data 23/05/2019 13:07:20 | Tópico: Poemas -> Solidão
| Doutor, me diga, o que eu tenho? Às vezes estou sorrindo em devaneio Outrora, lágrimas cortam o meu peito Estou cansado, doutor, não aguento Com tão pouco tempo de trilha, Já fui apunhalado e jogado ao relento Certos erros que cometi, ganharam vida, E me assombram, oh, que tormento.
Doutor, por que sofro desse jeito? O que fiz? O que esqueci de fazer? Sei que não sou perfeito, eu sei, doutor Mas, será que mereço? Quanto mais irei sofrer?
Doutor, cuide do meu filho Oriente-o, para que ele não siga o caminho do pai Que seja, carnívoro ou onívoro Mas, que ele seja, além de tudo, sagaz Pois, o que me faltou, eu quero que ele tenha por demais.
Doutor, eu confiei em tantas Dalilas Que a minha vida para sempre estará em ruinas Confiei a algumas, meu amor, meu calor, os meus versos Em recompensa, fui arremessado, isolado, ao deserto Chorei demais, doutor, e como chorei Pedi demais, doutor, e ainda pedirei Para mudar, me tornar um animal, Com apenas desejos carnais e nada mais.
Doutor, quero não mais argumentar perante o espelho Não quero mais discutir comigo mesmo Quero viajar lábios a lábios, sem me apegar Quero velejar em curvas que não irão me devorar Estou cansado, doutor, de me entregar e me enganar Tudo que faço é pensar no próximo Por que, então, doutor, me desprezam com tamanho ódio?
Doutor, o senhor não sabe, Mas, já escrevi serenatas de bela vontade Acredite ou duvide, foram ridicularizadas, doutor Elas foram esculachadas, enojadas Diga então, se estou doente Por que ainda continuo escrevendo-as diariamente? Até quando estarei na reciclagem? Até quando serei usado? Ou isso tudo faz parte?
Não, doutor, não tenho orgulho de quem sou Não me adoro ao reflexo, ah, o rancor Não sei mais o que fazer, preciso do senhor Acho que estou doente, sinto tanta dor Faça ela passar, bom doutor, por favor Estou à deriva e tenho medo de me afogar Não tenho ninguém para me salvar Nem mesmo aquelas pessoas que me pus a ajudar Abandonaram-me, caro doutor, todas elas se foram Viver um outro amor, foram se aproveitar de outro Sofredor, doutor, como eu, ah, quanto desamor.
Estou cansado de sempre tentar, Falhar, me recusar em desistir, e levantar Quero paz, doutor, mas, não sei se sou digno Talvez eu tenha cometido algum delito Talvez eu esteja mentindo para o meu espírito Talvez eu mereça estar ao pé deste precipício Caro doutor, diga-me, o que eu devo fazer? Devo ceder? Cair, para esquecer de tudo? Tenho medo de, quando sol nascer, Eu ainda esteja só, no escuro.
Doutor, às vezes eu fico pensando sobre a minha postura Fico pensando se eu deveria ser mais agressivo Ter menos "jogo de cintura", mais instinto, ser menos pensativo Doutor, quero ser comum, normal, apenas um indivíduo Com desejos, com medos, pensamentos reprimidos Não quero me preocupar com o bem-estar alheio Não quero ajudar pessoas e relacionamentos passageiros Quero ser um Don Juan, doutor, mas, não consigo Não consigo visualizar damas como simples objeto, estou perdido.
Doutor, desculpe este meu monólogo Obrigado por me escutar, me sinto melhor Espero vê-lo logo, tenho tanto mais para dizer, Desabafar, tenho muito para falar Obrigado novamente, doutor Devo ser o paciente mais problemático do senhor.
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