
UMA CANÇÃO ROUBADA DA IMUNDÍCIE
Data 16/02/2019 23:03:10 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Já e tarde e o mundo todo ouve Podemos cantar uma canção qualquer que não nos deixa Todos tocam separados os seus instrumentos As moçinhas com mochilas nas costas e uniformes escolares Os velhos sentados nos bancos da praça pálidos de reumatismo Cantarolando imperceptível uma canção A canção do mundo Uma canção roubada da imundície Nas redações dos jornais ou nas celas sentados em caixotes de madeira Os mendigos os bêbados e as crianças Afogados e ungidos de indiferença ate aonde a canção lês alcança A canção do mundo Que fere os já derrotados Que exalta os tiranos conquistadores Que enterra seus mortos em valas Uma canção que faz escravos Que traz os loucos para as ruas, para a noite. Que abre as portas do inferno Uma canção cantada no silencio Repetida pelas almas do porão Recitada pelos antigos, por Aleister e outros. A canção que cala as vozes gritantes Que rouba corações ingênuos Que mata bebes no sono Que acha este mundo pequeno Uma canção de fogo e de gelo Que ri das piadas sem graça Que passa a peste e as dores Que faz da cura a doença Uma canção rezada nas preces de altar Que pos os pregos na carne e na cruz Que viu o Cristo sofrendo Que fugiu pro deserto sozinha Uma canção irmã das pragas Que trouxe o óleo aos oceanos Que ensinou aos homens a arte da caça Que trouxe os exércitos e a guerra Uma canção pra contagem de corpos Pros túmulos escancarados dos saques Pros leitos lotados dos hospitais Uma canção repleta de medo Repetida pelas turbas de jovens loucos e selvagens Atrelada aos cavalos noturnos da morte Uma canção exaltando o ódio Que e racista e idiota golpeando os asiáticos os judeus e os negros Que lança mísseis que cortam os ares Que explode minas que amputam membros Uma canção roubada da imundície Que segue em cortejos que repetem em coro Que cria ladrões e assassinos Que faz das prisões suas caixas de ódio Uma canção pra resistir e seguir com o tempo Pra não deixar a espada na bainha ou o revolver no coldre Nem a lança parada e sem golpes Uma canção pra sabermos o que somos Pra enterrarmos nas carnes dos outros Destruirmos suas vidas tão simples Uma canção pra lançar contra a lua Uma canção que apaga o sol Um estribilho de brasa cinzenta Uma canção que gosta de sangue e fogo Uma canção roubada da imundície Uma canção que o mundo canta Atrelada ao homem desde sempre Presos os cantores insanos do mundo Uma canção que não morre com o tempo Uma canção sussurrada aos ouvidos dos recém-nascidos Uma canção que corre nas veias com o fluxo do sangue Uma canção para os olhos estéreis dos mortos A canção da foice e do capuz Que não reconhece vitorias nem se importa com sonhos Que mata os heróis e segue os vilões Uma canção roubada da imundície Que incendeia aldeias e estupra meninas Que cala os poetas e acorda os vulcões Uma canção pra ser latida por cães e rugida por feras A melodia repetida nos tiros Uma canção de espinhos e chicotes Que explode com as bombas nos carros terroristas Uma canção entoada no choro que leva bebes mortos pra ultima morada Uma canção solta no mundo Que uni as vitimas e as desampara Que esta nos pratos vazios da fome e na terra seca sem chuvas Uma canção de enxurradas que afoga os distraídos dentro das casas Que carrega seus últimos valores pro lodo imprestável Uma canção pros bordeis decadentes e pras veias picadas dos viciados Uma canção de quem atira de longe e acerta o alvo Daqueles que golpeiam de faca nas noites dos bares Uma canção roubada da imundície Que e muita que e todas e é única pra todos Uma canção de horrores e sombras De tragédias e guerras Uma canção que não acaba e cresce Uma canção tocada e tocando como a peste Uma canção dos fracos dos trôpegos dos covardes dos humanos A canção que o mundo canta Uma canção roubada da imundície.
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