
Parto
Data 21/01/2019 14:02:31 | Tópico: Poemas
| Sinto-me uma parte da laranja, Um pedaço de astro destacado De outros astros, quem se arranja De forma estranha do outro lado.
Sinto um parto de planta Ao parir uma semente Que cai entre pedregulhos, Entre escórias e entulhos.
É uma dor inconveniente, Dor de rocha, dor de pano, De vento varrendo oceano. Sinto uma dor cor-de-gente.
Por vezes eu sinto um dente Do dia que amanhece sorriso De pente que penteia cometas; De peixes em lubricidades com rios.
Pinto o silêncio com tintas De vidros transparentes Para que a aparência do som permaneça E cresça na mina Da minha cabeça, Nas cercas brancas E nas verdes paredes Da minha mente que mente E te vende uma verdade Que foi mentira sempre.
Ria. Mas creia Que a centelha acesa Não cresce na mata Nem em campo de batata De quem nada semeia Ou de quem lavra E rastela castelos na areia.
Assim o poema já nasce torto Assim o sistema já nasce morto Um touro mocho no cerrado Nos topos dos serrados do M Na semântica manca do verso.
Sinto uma dor de parto de pedra Nascida na serra, na terra preta Das alamedas de abetos Cobertas de teias Das aranhas caranguejeiras Fúlgidos flagelos Das letras negras Do meu alfabeto, Das janelas abertas na capoeira.
Meu ventre se parte após o parto, Após o infarto E o que tenho É lume do lenho Engendrado que é tema E mistura de amônio e de estrela, De Antônio e de Estela, De anjo e demônio, De estela e esterco Na natureza besta deste poema.
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