
CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO / Segunda Parte: PROSÉLITOS
Data 11/06/2018 09:27:26 | Tópico: Poemas
| CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO
Segunda Parte: PROSÉLITOS
Contudo, por toda parte E com toda a espécie d'arte S'elevaram muitas vozes De líderes religiosos, Que com libelos ferozes Arvoraram-se os algozes Dos erros pecaminosos.
Como se o braço de Deus, Espevitavam os seus Com ardor contra os demais, Porquanto o mal manifesto... Corrompida a Humanidade, Eram eles, na verdade, Dos homens santos um resto.
Arrastavam multidões Em extensas pregações A relembrar profecias D'esses eventos finais. Afirmando em gritarias Ser aquele o fim dos dias Face aos bíblicos sinais.
Havia, de facto, a imagem -- Livro de Joel, passagem Dos oráculos do Senhor -- Contando a sua visão: Onde um sol já sem ardor Cede no céu seu fulgor À mais plena escuridão
No lugar, tão-só a lua Sem estrelas continua A reluzir, contudo, Plena e sanguínea no céu. Indicando o fim de tudo, Onde crentes sobretudo Veem a desdita do infiel!...
Como Joel descreveu, A lua em seu apogeu Fez-se sanguínea também E aos céus não mais deixaria. Somente um resto, porém, Reunido em Jerusalém Com fé sobreviveria.
Os mais, perdidos nas trevas, Co'as suas paixões malevas Vendo os crentes verdadeiros Livres de tão triste sorte Onde desastres inteiros E, ao fim, quatro cavaleiros: Peste, guerra, fome e morte.
Após a última trombeta, A cristandade completa Veria o instante esperado Só então, o crente fiel Com Jesus ressuscitado É também arrebatado A ir ter com Deus no céu.
Aos que ficam -- diziam eles -- Resta a mesma a vida reles: O mundo e sua injustiça Permanece sem final. Pois, onde o pecado viça Na luxúria e na preguiça Continua tudo igual!
A leituras desonestas E tão obtusas quanto estas É difícil contrapor, Enfim, o que quer que seja. Se, para meu estupor, Confundir mediante o horror No fundo é o que deseja.
-- "Tendo fé como argumento, A verdade é treinamento!" -- Eis como por circunstância Um intolerante ensina A sua própria intolerância Àqueles que com grande ânsia O veem igual lamparina...
Qualquer frase repetida -- quer banal ou esclarecida -- Dogma virava em seus lábios. Clamando em nome de Deus Contra islamitas arábios, Cientistas, artistas, sábios E seculares ateus.
Tenho claro que tais falas Ecoando por amplas salas Tocam muitos corações. Porém, são sobre política E não sobre religiões... A estes extensos sermões Falta sempre autocrítica!
Mas as mensagens pastoras, -- Autolegitimadoras!... -- Têm em comum entre si O senso de que a Verdade É a mesma aqui e ali, A reluzir igual rubi Para toda a Humanidade.
Em discussões cheias de nada Tão-somente confirmada A doutrina em seus enigmas Deve ser por seus doutores... Se, entre dogmas e querigmas, De Jesus vendo os estigmas Ao celebrar-lhe louvores.
Assim, condenam o mundo E o descrevem moribundo À espera de seu final. Em tudo vendo prodígios, Já creem do bem contra o mal A lua em sangue um sinal Após guerras e litígios.
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