
DON'ANA (sextilha)
Data 10/04/2018 16:14:24 | Tópico: Poemas
| DON'ANA (sextilha)
Era uma mulher do lar; D'aquelas para casar E que se quer sempre sua. Que sabe bem seu lugar, Pois, tem recato no andar Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome E um desejo que a consome Desde quando pequenina. Senhora sem sobrenome, De ser alguém tinha fome: Só p'ra casar se destina.
Noiva, era muito feliz, Tendo tudo o que quis Porque sempre do seu lado. Por fim, para todos diz: -- "A minha sorte eu que fiz, Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes, Ei-la sem sedas e suedes Em face d'ele despida. E cheia de fomes e sedes, Tal como sereia nas redes Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama, Mas uma puta na cama, Tendo-se melhor mulher, Do que quem no mundo puta E na cama só computa O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa, Era bem da natureza Do seu noivo, de primeiro, Na mais pura safadeza Após deixar a princesa, Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena A alguma vaga morena As visitas do seu amor... Que sentiam até pena Da noiva que ele apequena Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz, Dando-se como lhe apraz E quando se lhe convém. Vivia lhe andando atrás... Mas, tanto fez; tanto faz: Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" -- Diziam cidade afora -- "As outras, só vêm e vão..." D'ele mais s'enamora Havendo em conta que mora Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia, Quem se deu tal ousadia Mal s'engana de que a engana. Há-de vê-la, todavia, Desfilando fidalguia: -- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
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