
andarilhânsias (II)
Data 28/07/2017 22:26:15 | Tópico: Poemas
| (caminho sentido)
sentes ainda as minhas dores sem fundo de uma maneira como só tu sabes sentir as dores do mundo
sentes-me sem que te pise agora ao largo e através ouves-me os passos e ainda ardem as feridas que os meus pés em ti poisaram
como filhos adormecidos depois do conto de embalar
sei que guardas em ti ainda o estremecimento do meu corpo aos frios de janeiro e te sustentam a sede vestígios salgados que o verão beijou na minha pele
estações de frutos breves fartas colheitas de fel fatias de vento espesso que cortava alimentando pressas de chegada
a ti ainda me consagro caminho santo terra pisada estrada antiga do meu pranto
de ti guardo ainda - sob o meu sétimo colchão - areias finas que trouxe nos meus sapatos tão gastos de te percorrer no fio da navalha no martelar do coração na ânsia da partida à adiada fome de viver
chão-raiz - que me conheces tão bem - do teu nome lembro também um sonho submisso amoras bravas perfumes de vinho passos incontáveis sorrisos de pedras
pedaços que te percorri escrevendo no vento o silêncio, o poema, a palavra e guardei por dentro de mim própria avara
e agora herdas, minha velha e sentida estrada.
in "40 Poetas Transmontanos de Hoje" - Âncora Editora, 2017
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