
*Meu Deserto, Meu Chão
Passei as primaveras sem colher As flores esmaecidas murcharam Quando as olhei num entardecer Não mais sorriram, oh, amarelaram.
Olhei o espelho, o deserto na mira Pegadas firmes, sonho ventureiro Como enganar sem marcas curupira A esperança com o fito primeiro.
Revirei páginas, folheei o tempo Horas regando os rijos segundos Em cada despertar em passatempo
A máquina não carecia de conserto Não havia no cofre capital, fundos Apenas a canção aspirando acerto.
Nas teclas tristes da rude mensagem Desviei o piano em pleno concerto Da inadequação de sons miragens.
Escrava do porvir tracei rabiscos A mão ingrata descoloriu a tela Dispersa na emoção e tons ariscos Perdida a direção à emoção duela.
Mesmo que a tinta roube o tinteiro Na cor descolorida e na alma nua A vida caminha no sonho arteiro.
Posso colher agora é só querer Em cada alvorecer de olhar veleiro Barca e vontade rumam ao estaleiro Passei as primaveras sem colher. ***
Nas cinco primeiras vencedoras para VI Coletânea Século XXI
Sonia Nogueira
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