
VISITAÇÃO
Data 27/02/2017 20:50:46 | Tópico: Poemas
| Volto, às vezes, à serenidade do teu sono. Não me vês - fico a ver-te dormir na escuridão que prolongo além das minhas vestes e adivinho-te a entrega dócil ao resvalar da noite já morrente.
O dia acorda devagarinho, sem que suspeites. É a minha hora, o meu sinal – as tuas pálpebras não sabem, mas são reposteiros que dão para o vestíbulo donde te espio como ave de rapina ao frio madrugar da luz.
O teu corpo desatento espraia-se alongando o vício do meu prazer.
De súbito, antes que os teus olhos me vejam escura e funda o ar frio que transporto penetra no teu peito despreparado e tenro.
Fissuras abrem-se, engolindo a luz por que acordaste e, lá fora, um pássaro indistinto procura o espinho sublimante do canto que há-de ser.
Os teus cílios agitam-se, como asas condenadas a tua pele escuta o teu coração aperta o medo que lhe vem nas veias:
“Será saudade, será tristeza?...”
perguntas-te, à mercê de mim incógnita e negra sub-reptícia e alastrante.
“És tu, saudade...?”
perguntas baixinho estendendo a mão como quem precisa de um colo de mãe.
E eu não te abraço, só finjo sorrir.
“És tu, tristeza...?”
pedem os teus lábios aos teus olhos secos como quem estranha os pântanos de sempre.
E eu só avivo a sede que te mata.
Aperto mais um pouco, em gozo de fel aproximo a Dor, cubro a tua pele
Limpo-te o suor, retraio os meus véus e nos teus olhos mudos tremem mares e céus _
“Eu sou a Angústia” digo-te ao ouvido.
E o dia lá fora morre com o pássaro num mesmo gemido.
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