
A MÃO DE DEUS
Data 17/01/2017 11:09:24 | Tópico: Sonetos
| A MÃO DE DEUS
iluminura Separa luz de treva em frontispício A mão de Deus ao criar a obra divina. Uma exegese ao Gênesis ensina, Enquanto põe às claras Seu ofício. Ilustrando-nos com arte e artifício O gesto que de Deus tudo origina, Um pergaminho em cores se ilumina E revela o Universo antes do início. Eis a imagem de cosmogonias N’um códice que cheio de alegorias Traz as respostas sós d'Aquele que é. E o medievo saber de tantos monges Elevará o espírito nos longes Pondo em duplipensar razão e fé.
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tese A crença é de que está na mão de Deus A balança que pesa nossos actos. Forçoso é ter, porém, como inexactos Seus dons tal como veem os europeus:
Sistemas religiosos põem nos breus Verdades a luzir além dos factos No afã de perpetuar os sociais pactos De ordem e de poder aos filhos Seus.
Com efeito, a função social da fé Há séculos mantém assim de pé As Igrejas com suas catedrais.
Se uma cruz a serviço de coroas Antes a submissão quer das pessoas, Que lhes prover de bens espirituais.
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antítese Tendo o homem criado Deus — não o contrário — Assim, à sua imagem-semelhança, Para habilmente haver outra esperança Inventada a lhe dar conforto vário. Engenhoso artífice; bom operário, Pôde o homem da Natura obter pujança; E insensível a toda má mudança, Se quer sem superior ou intermediário. Super-homem d'uma era pós-moderna De Deus morto e morte-arte, à beira-abismo, Contempla o Fim dos Tempos no que externa. 'Pós se reduz ao mais vão materialismo, Sem saber de Criador ou vida eterna, Senhor e servo em seu próprio egoísmo.
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síntese Homens se moldam ídolos divinos, Igual o oleiro à argila põe no torno. Quem faz quem? É levada a massa ao forno, Que após se vivifica em preces e hinos... Estatuetas que humanos desatinos Têm ora como símbolo; ora adorno. Si mesmas obras d’arte, em cujo entorno Parecem emanar fatais destinos. A mão que faz a mão cria a criatura. São seres que se fazem porque Seus Junto a todos os seres da Natura. Suas as nossas obras -- a olhos meus, Separa treva e luz na iluminura -- Onde a mão do homem é a mão de Deus. Belo Horizonte – 11 11 1999
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