
HAGIOGRAFIAS
Data 08/12/2016 18:31:39 | Tópico: Sonetos
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I são Francisco Xavier Ir sempre mais além! Sempre mais longe!... Por tocar de cada um o coração. Que, se não faz a cruz bom o cristão, Um hábito tampouco faz o monge.
Ide-vos! Passo a passo mais se alonje Quem fostes n’uma antiga escuridão. Para que, exercitados na oração, Esta às máculas d’alma lave e esponje.
Tende por armas antes a bondade, Onde a misericórdia vos transborde Desde o peito uma real felicidade.
Sim, com júbilo uníssono de acorde, Buscai com todos ter boa-vontade, Fazendo-nos um mundo mais concorde.
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II são Francisco de Assis Marcaste-me, Jesus, com Tuas chagas. Rasgas profundamente as minhas palmas Mas mesmo assim, na dor após me acalmas, Do que na solidão sempre me indagas.”
Bendigo o sangue, a angústia, o ardor, as pragas... Caminho pelas trevas, mas me psalmas. Pelas fadigas d’este mundo, às almas Toda a luz que me deste não me apagas.
Porque ouvida a ordem Tua, a obedeci, E visto sinal Teu, o acompanhei; Vivendo-te a Paixão, eu renasci.
Perdido para o mundo, me ganhei; Um trovador de Deus me conheci: Teu amor arde em mim, e eu te sonhei.
* * * III santo Antônio de Lisboa Douto, tanto dos Céus quanto da Terra, Tivera a sua língua incorrompida Para mostrar na morte o que na vida Fora d'hereges máquina de guerra.
Sem embargo, o carinho que 'inda encerra Sua imagem por séculos querida Do Menino-Jesus o fez guarida, Como honra a quem ao lúcido se aferra.
Divina é a razão posta a serviço, Cá dos homens que às cegas buscam Deus E se perdem p'lo mundo com os seus.
Mais festeje este seu povo tudo isso: Aquele que na Glória luz em feixes, Após pregar Jesus até aos peixes.
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IV santa Bárbara Há quem afinal clame pela santa Sob o clarão dos raios de tempestade... Quando de súbito uma claridade Bem perto do vivente se agiganta.
Sua estupefacção então é tanta Que mal se lembrará da autoridade D'essa virgem e mártir que, em verdade, Só pelo exemplo e fé há tanto encanta.
Dos mártires é a alma iluminada. Enquanto os olhos têm fitos em Deus, Elevam-se, por fumo, para os céus.
Dos algozes a sorte está lançada... Vãs as invocações feitas a Zeus: Os raios do Tonante vingam os réus!
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V são Sebastião Mártir são Sebastião, crivado em setas, Que estais atado a ramos tão agrestes Para dar testemunho de fé a estes Cuja violência contam os profetas,
Oh, vinde em nosso auxílio! -- nós, os poetas -- Livrai-nos enfim d'estas negras pestes; (Mesmo o niilismo e o tédio...). Prometestes Iluminar às mentes sós e inquietas.
Curai o nosso escuro coração Sem vos curvar jamais favores, mimos... Antes a mais perfeita contrição.
Trovadores do nada, vos pedimos: Sede nosso advogado em intercessão Contra o imenso vazio que sentimos.
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VI santa Cecília Mas, entre o amor e as artes, Deus quem sabe... Quando servi-LO é tudo o que deseja, Oferta os seus talentos para a Igreja: Põe música e poesia em quanto cabe.
Pouco importa que um dia o céu desabe E leve embora amores ou o que seja, Ela abençoa a mão que a apedreja, Antes que a melodia à boca acabe.
Grande restauradora de canções, Trouxera a voz dos anjos às prisões Onde homens e mulheres esperando...
Eis a mais nobre força de tais artes! Não fazer esquecer de quando em quando, Sim alumiar a dor em tantas partes.
VII santa Rita de Cássia Aquela que olha pelos malcasados Chora com eles dores também suas... Pois têm, mesmo passadas tantas luas, Ainda os sonhos vãos despedaçados.
Se na vida a dois tudo tem três lados, Tanto um e outro se veem verdades cruas. Mesmo o amor que aquecera as peles nuas Depois lhes deixa os olhos marejados...
Há quem diga ser coisa do demônio A passionalidade da maldade Que lhes destrói família e o patrimônio.
Isso faz admirável, em verdade, Quem soubera fazer do matrimônio Uma estrada de dor e santidade. Betim - 10 11 1999
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