
O GRANDE INQUISIDOR
Data 29/10/2016 17:59:42 | Tópico: Sonetos
| O GRANDE INQUISIDOR
exórdio
N'um acesso de cólera, há quem fique Bem diante da verdade, sem saída. Qual quisesse apagar a nossa vida Do Livro dos Eleitos ou onde a indique.
Não admira se acaso pontifique: -- "Sois a pior coisa já acontecida!" -- Ele tão-só computa em sua lida A gota d'água p'ra romper o dique...
Após prisão estúpida e arbitrária, Logo ele nos acusa, por má sina, Nos máximos rigores da Doutrina.
Por fim, nos silencia a mente vária, Negando-nos o humano patrimônio Como fôssemos piores que o demônio.
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invectiva
-- “Ai de vós! Credes em códigos de classe E vos permitis do ódio instrumento. Juiz obtuso, dais ao erro provimento, Qual claro dia em trevas se tornasse.”
“Talvez não verdes danos n’este impasse, Ou, obscuramente, n’ele haveis alento. A inépcia ocultais com descaramento, Malgrado o próprio mal se horrorizasse."
“Por quem sois! Deitai fora tais tiranos Que constrangem a agir com vilania E ora vos detêm, cúmplice de enganos.”
“Sei que nos odeiam por nossa ousadia. Mas vós, que haveis com eles, que planos? Que abuso à vossa cátedra impedia!?”
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falácias
-- “Oras, oras... Vós-outros bem sabeis A gravidade toda d’estes factos. Não obstante, pensais que ainda intactos Vossos direitos face a nossas leis?”
“Rebeldes à autoridade, conviveis Entre conspirações, tramas e pactos. Fugis às consequências dos maus actos, Inimigos dos reinos e dos reis! “Lesais a coisa pública, entretanto, Ao combater os próceres do Estado Assim como o Direito sacrossanto.”
“Crime de Lesa-Pátria... Um atentado Autofágico e infame a ser punido Co’o máximo rigor reconhecido.
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réplica e tréplica
— “Dai-me algo por provar vossa inocência! Falai-me ao menos!”— Diz o Inquisidor. "Eu estou desolado" — acho... — "Ou melhor, Lamento, mas não falo à esta audiência".
"Malgrado não me acuse ora a consciência, Nada tenho a dizer em meu favor”. Ele diz: — “Mas que pena! Tanto pior! Se vos resta implorar tão-só clemência”...
“Eu só penso que vós não haveis dito O que dizeis, não fosse indefensável A verdade d’um homem já proscrito”.
— “Eu sei. Deveras, tudo isso admirável! A minha vã verdade eu acredito Ser-vos não falsa, sim insuportável”.
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ex-cathedra
— “No ano da graça de Nosso Senhor, Compareceram diante d’esta Sede Senhores cuja morte se nos pede O venerável Grande Inquisidor.
Ouvida cada parte em seu favor, Julgamos que o recurso que concede A suspensão da pena não procede, Devendo os réus cumprirem o mal maior.
O fogo purifique vossas almas E em meio às labaredas subam calmas, Qual bode que expiatório com óleo unta-se.
Este é o parecer; é meu juízo: Purificai-vos para o paraíso! Publique-se, registre-se e (enfim...) cumpra-se.
Betim - 20 11 2004
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