
ODE SERENADA
Data 04/10/2016 10:00:07 | Tópico: Poemas
| ODE SERENADA
I
Em glória a lua agora, Que a viola viola a noite... Cordas de aço que pela rua afora Vibram embora o peito mais se afoite: Um coração batendo compassado Co’a música em seresta Revê de forma honesta [ o seu passado.
II
Recorda aquela idade Na qual a fantasia Alumbra os anos vãos da mocidade Sobretudo de música e poesia: A bela época de áureas ilusões!... Concertos nos quintais E acordes triunfais [ pelas canções.
III
Recorda amor antigo Que tanto o coração Fizera já sofrer feito um castigo. Acabrunhado pela solidão Ao ver o triste fim de quem amou, Buscando se perder Já sem saber sequer [ por onde andou.
IV
Recorda uma outra lua Em névoas serenada... Quando andando só por deserta rua À janela de sua namorada. Ali veio cheio de encantos e esperanças E embora ela dormisse Alguns versos lhe disse [ em falas mansas.
V
-- “Amada tão amada, Malgrado o teu pudor, Rogo que tu me venhas à sacada... Seja o tardio da hora um mal menor, Quando tão suave a voz quanto o acalanto! De modo que acordando, Murmures quando em quando [ este meu canto.”
VI
“Ainda estás dormindo... Recebe-me em teus sonhos! Faça-se meu cantar a ti bem-vindo Até deixar teus olhos mais risonhos. Escuta de meu peito o canto amante Te entrar pela janela... Agora, minha bela [ e d’oravante.”
VII
Cantou tantas modinhas N’aquela noite clara, Que por fim suas almas tão sozinhas Viu como se estivessem cara a cara. Sem embargo, ninguém veio à janela: Cantando até a aurora, Após se fora embora [ ‘inda sem vê-la.
VIII
Passaram muitos dias E os dois não se encontraram. Ansiava já, perdido em agonias, Tudo o que as circunstâncias lhes negaram. Teme que esse momento não se dê... Dir-se-ia igual à lua, Que ao sol se insinua [ e raro o vê.
IX
Até que enfim a viu Nos braços d’outro rapaz... Ela, desconcertada, lhe sorriu; Mas ele sequer d’isso foi capaz. Seguiram por caminhos bem contrários Sem nunca ele esquecer O quanto puderam ser [ extraordinários.
X
De facto, muitos anos E amores se passaram. Seguindo cada qual com seus enganos. Bem confusos e vãos se reencontraram. Era como se fosse ainda jovem... Jamais foi tão feliz!... E os sonhos que lhe quis [ ainda o comovem.
XI
Contudo, ela mudou E não sabe o que quer. Já ele nunca mais se enamorou, Como se não houvesse outra mulher. Sabia que na noite serenada Deixara o coração Em cada só canção [ ali cantada.
XII
A noite se enluarara Nas cordas do violão. À luz sabidamente tão rara D’uns olhos marejados de emoção, Ele e ela se encontrando novamente: Não cuidam do futuro Ou mesmo se algo obscuro [ em seu presente.
XIII
E feito alucinados Viveram o momento... De facto, pela lua ora encantados E ouvindo da seresta o movimento Sentiram-se a ressoar em harmonia. Em noite serenada, Verdade misturada [ à fantasia.
Ouro Preto – 12 10 1995
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