
ODE MELANCÓLICA
Data 28/09/2016 13:05:36 | Tópico: Poemas
| ODE MELANCÓLICA
I Não fosse o teu olhar Me abrir d’alma as janelas, Apenas bastaria eu me calar E nada saberiam das procelas Que têm há muito tempo me aturdido. Sem qu’eu possa, porém, Buscar mais nada além [ do próprio olvido. II Assim, a merencória Feição dos olhos meus Expõe demais a minha dor inglória À penetrante luz dos olhos teus. Pois entre olhos se vê, mal comparando, Estrelas a orbitar, Podendo se alinhar [ de quando em quando. III Falaz luz dos felizes Ou estranho afã d’um triste?... Enquanto se cutuca as cicatrizes, Não fecha suas feridas quem insiste! Quando eu me for, não chores. Não. Nem sempre essa vida Nos vale ser vivida [ em meio a dores.
IV Por isso, ergue-te a taça E bebe do teu vinho! Embriaguemo-nos, pois, a vida passa E mais suave a tua pele ao meu carinho... Alegra-te apesar d’essa tristeza Que turva meu semblante. E traz-me ao peito amante [ outra beleza.
V Mas curta a vida curta Quem d’ela tem à farta! Se hoje cheira bem rama de murta. Amanhã, igual palha se reparta... A mão que ora te toca tão quente Não mais será um dia... Pousada ao peito, fria [ e inutilmente.
VI Entende que essa idade Na qual tenros os frutos Passa e leva consigo, na verdade, Uma época de riso e olhos enxutos, Que contrasta com outra mais futura. Uma época onde então Partido o coração, [ se desfigura...
VII Escuta, minha linda Os versos do infeliz. Percebe quanto ardor contêm ainda E não só como insólitos ardis A bem te seduzir com más urgências. Talvez seja um mistério Quedar já sob o império [ de aparências.
VIII O triste é um realista, Que sonha realidades. E não importa o quanto ele resista, Tão-só lhe restarão suas saudades... Alguns chamarão isso pessimismo Mas outros, lucidez. Vivendo sem talvez, [ e sem cinismo.
IX Tampouco evita a treva Aquele que a conhece. Já sabe a escuridão aonde leva E nada teme quando se entristece. Ao contrário, compreende até melhor Os factos e as razões De tantos corações [ tontos d’amor.
X Sorri, tu que tão bela M’escutas estes ais. Sorri, porque a tristeza te revela A verdadeira dor de amar demais. E, sorrindo, percebes meu pranto Enfim, revelação. Que só na escuridão, [ alumbra tanto.
XI Decerto alguma dor Também o teu sorriso Se oculta entre o prazer e o dissabor. De tentar viver como é preciso Ou ouviste que mais bela nos seduz A moça que sorri, Senhora já de si, [ de encontro à luz.
XII Embora fale pouco, Sorrio ainda menos. Não cuido se casmurro, arisco ou louco Por ter tantos em conta de somenos... Sem embargo, apesar de tão sisudo, Às vezes eu me alegro De pôr meu olhar negro [ além de tudo.
XIII O facto é que sorrindo Soubeste me entender: Faz do mundo um lugar sempre mais lindo Quem alegrias e dores envolver N’um sorriso mais denso de poesia Já não porque feliz Mas sim porque se quis [ melancolia.
Betim – 27 09 2016
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