
Imperfeito Resort
Data 29/08/2016 11:54:52 | Tópico: Poemas
| Imperfeito Resort
Voltamos da praia, mais de quarenta graus, leve brisa muito quente, como é dificil respirar! Caminhamos um atrás do outro, por forma a não sairmos da curta sombra colada ao muro do resort. Nosso bungalow está situado ao fundo da rua principal que se estende em linha reta e atravessa toda a estância, debroada a moringas, gardénias e buganvílias, cujo aroma e composição colorida nos trazem à lembrança os portais do paraiso, pelo menos como nos foi apresentado. Entramos no bungalow, ar condicionado no máximo, trabalhando em esforço e dizendo-nos pelos estalidos metálicos algo incomodativos das ventoinhas, que já teve melhores dias. A janela grande, em vidro de cor azulada que ainda não percebi se é a sua própria cor ou o reflexo do céu, assemelha-se a um quadro de natureza viva, pontuado pelo verde das pupunhas e mungubas e onde sobressai, como uma pincelada de Van Gogh, a cor clara e brilhante de um grande ipê-amarelo que pelo seu porte majestoso, se anuncia quase centenário. Do campo de palmeiras que se estende até à praia chega-nos o chilreado estridente dos tangarás, sabiás e pintassilgos da Venezuela que, a julgar pelo agrado colocado no canto, não lamentam a considerável canícula e celebram-na até de forma entusiasta. Agarro-te pela cintura, meus lábios procuram os teus, beijo-te as faces salgadas que imagino da salmoura mas apercebo-me depois que é das lágrimas grossas que te rolam pela cara, que eu vejo mas, estranhamente, não me preocupam, nem sequer te questiono! Beijamo-nos excitados, o fresco contraste com a temperatura exterior deixa-nos em pele de galinha, todos os pelos eriçados, hipersensíveis. Estamos enamorados, nada mais pensamos do que no entrelaçar dos nossos corpos cansados. Ao longe começo a ouvir um som que me é familiar, um som digital, parece o meu despertador! Quem me dera ter adormecido mais cedo, talvez conseguisse terminar o sonho, talvez nos amássemos no chão, na banheira, na cama...
Ruinav
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