
Benção (Charles Baudelaire)
Data 22/07/2016 00:27:16 | Tópico: Poemas -> Intervenção
|  Quando, por uma lei das supremas potências, O Poeta se apresenta à platéia entediada, Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências, Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:
– “Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes, Em vez de amamentar esse aleijão sem graça! Maldita a noite dos prazeres mais ardentes Em que meu ventre concebeu minha desgraça!
Pois que entre todas neste mundo fui eleita Para ser o desgosto de meu triste esposo, E ao fogo arremessar não posso, qual se deita Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,
Eu farei recair teu ódio que me afronta Sobre o instrumento vil de tuas maldições, E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta, Para que aí não vingue um só de seus botões!”
E rumina assim todo o ódio que a envenena, E, por nada entender dos desígnios eternos, Ela própria prepara ao fundo da Geena * A pira consagrada aos delitos maternos.
Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante, Inebria-se ao sol o infante deserdado, E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado.
Às nuvens ele fala, aos ventos desafia E a via-sacra entre canções percorre em festa; O Espírito que o segue em sua romaria Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.
Os que ele quer amar o observam com receio, Ou então, por desprezo à sua estranha paz, Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio, E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.
Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto Eis que misturam cinza e pútridos bagaços; Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto, E se arrependem por lhe haver cruzado os passos.
Sua mulher nas praças perambula aos gritos: “Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me, Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos, E assim, como eles, quero inteira redourar-me;
E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso, De nardo e mirra, de iguarias e licores, Para saber se desse amante tão intenso Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.
E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias, Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão; E minhas unhas, como as garras das Harpias, Hão de abrir um caminho até seu coração.
Como ave tenra que estremece e que palpita, Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração, E, dando rédea à minha besta favorita, Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!”
Ao Céu, de onde ele vê de um trono a incandescência, O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas, E o fulgurante brilho de sua vidência Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:
– “Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento, Esse óleo puro que nos purga as imundícias Como o melhor, o mais divino sacramento E que prepara os fortes às santas delícias!
Eu sei que reservais um lugar para o Poeta Nas radiantes fileiras das santas Legiões, E que o convidareis à comunhão secreta Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.
Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema, Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos, E que, para talhar-me um místico diadema, Forçoso é lhes impor os tempos e universos.
Mas nem as jóias que em Palmira ** reluziam, As pérolas do mar, o mais raro diamante, Engastados por vós, ofuscar poderiam Este belo diadema etéreo e cintilante;
Pois que ela apenas será feita de luz pura, Arrancada à matriz dos raios primitivos, De que os olhos mortais, radiantes de ventura, Nada mais são que espelhos turvos e cativos!”
* Em hebraico, gue himnon, expressão que designava ‘o vale do Himnon’, perto de Jerusalém, onde era comum o sacrifício de crianças pelo fogo em honra do deus Moloch. Em linguagem bíblica, é o inferno: O fogo da Geena. Em sentido figurado, o termo equivale à tortura, ao martírio, à dor intensa. (Nota do tradutor Ivan Junqueira)
** Nome da antiga Tadmor, já mencionada no III milênio a.C., oásis e etapa das rotas comerciais de caravanas entre a Síria e a Mesopotâmia. Aliado depois a Roma, o pequeno reino de Palmira prosperou graças ao tráfico de produtos das Índias e do Extremo Oriente. Colônia romana no séc. III, desligou-se do Império para tornar-se Estado vassalo, célebre por suas conquistas, em particular sob as administrações de Odenato e Zenóbia. Dominada por Aureliano em 272-73, foi destruída pelos árabes em 634. (Nota do tradutor Ivan Junqueira Charles Baudelaire (1821-1867), poeta francês. Poema traduzido por Ivan Junqueira.
Imagem: Palmyra, Siria
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