
Mutismo seletivo
Data 08/05/2016 20:04:45 | Tópico: Poemas
| Mutismo seletivo
Mordo este mutismo seletivo de frases inacabadas nas palmas das minhas mãos e com cuidado, separo o grito aflito da navalha acobardada cortando cada pedaço de cicatriz cravada na solidão
sangram-me os verbos, doem-me as penas, falta-me o hálito segredado e fustiga-me esta ternura insone que me agrilhoa o pensamento
desbrava-me silente num desencantamento que me invade
mas tu vens, chegas de mansinho num poema, desces os degraus do viço e enlaças-me num abraço
inspiro ferozmente a amargura das lágrimas e sobre as pedras, já gastas, de tão puídas pelos meus pés,
coloco a missiva dentro da lâmpada aguardando-te, Aladim na minha previsão, que passes a tua mão no desejo
e descortines, de vez, a presença do sol que tão bem conheço nas veias num tartamudeado rubor
quando a frescura da primavera se levanta, escondida há tanto tempo nas atípicas monções, na missão cumprida em meu louvor
sinto-te sobreiro profícuo no teu versejar atónito, nas sílabas saborosas das folhas e até na cortiça dos lábios suaves…
magia da lavoura das letras que me fazem curar o sonho de “Bela Adormecida” ao picar o dedo na roca da paixão desmedida
sou a terra das frases o barro das palavras, o húmus das raízes o sol abrasador ou a chuva de gotas felizes
caindo mudas nas metáforas que digo
que dizes!
|
|