
Quando eu...
Data 29/03/2016 17:28:03 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Quando eu deixar de sonhar com os murmúrios do mar, …E o meu peito cansado deixar de beber o perfume da maresia, Quando eu não mais sentir a caricia do brilho cintilante do sol, …E deixar de criar a minha poesia com o romantismo do luar, Quando eu perder a emoção ao ver nascer a alvorada matizada, …E deixar de admirar e pisar as pedras gastas das calçadas, Quando eu não mais me sensibilizar com os aromas da natureza, …E os abraços não me encontrarem, Quando os sorrisos ficarem sem resposta, …E as minhas palavras se calarem… Talvez eu tenha deixado de ser matéria e num lampejo metafisico esteja em outro caminho…
E se forem dar-me um abraço à ultima carruagem onde farei a minha derradeira viagem, Não se despeçam do meu corpo inerte, chorando desejo sim, ouvi-los alegres, cantando, Não se preocupem com flores que eu até adoro… Mas as flores murcham, e secas, sem cor, são tão tristes!
O que eu somente vos peço, em especial aos que são verdadeiros amigos, é que unicamente me leiam… Sim! Que digam poemas meus, Que os sintam, Para que eles se elevem juntamente com a minha alma, e leiam-me, se possivel, amigos com o trinar de uma guitarra como fundo, Mas, por favor…sem hipocrisia,nem cinismo falsidades que eu vi e senti, tantas e tantas vezes por aí! Ah…também dispenso os piedosos elogios que me queiram prestar agora, se eu era merecedor deles, deveriam ter-me dado em vida!
Sabem… Quanto a flores…depois de murchas são ignoradas e esquecidas, O que não acontecerá quando me lerem por que esse momento ficará marcado para sempre nas vossas mentes, se honestamente o fizeram com sentimento E eu, creio sinceramente que assim, a minha etérea viagem será mais serena… Pois penso ir ao encontro do saber despretensioso e simples dos verdadeiros poetas que por lá tertulam, Esquecerei as presunçosas elites bacocas que aqui neste espaço terreno se vestiam de seres diferentes, enchiam a boca de vaidade, alimentavam-se de arrogância, engalanavam-se de crispação e riam com superioridade a si próprios numa lamentável demência da consciência!
Se fizerem o que eu vos pedi, companheiros da despedida, eu, espiritualmente lá do alto, vos bendigo, com a humilde franqueza que aqui neste chão da minha efémera existência, foi o meu caminhar pela vida.
José Carlos Moutinho
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