
Gritar (Paul Eluard)
Data 10/12/2015 15:30:26 | Tópico: Poemas -> Intervenção
|  Aqui a ação simplifica-se Derrubei a paisagem inexplicável da mentira Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos Ponho-me a gritar Todos falavam demasiado baixo falavam e [escreviam Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A ação simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida Que lhe destinava um lugar perante mim
Com um grito
Tantas coisas desapareceram Que nunca mais voltará a desaparecer Nada do que merece viver
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão Canta debaixo das portas frias Sob armaduras opostas Ardem no meu coração as estações As estações dos homens os seus astros Trêmulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que me pesa Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto Ardendo de frio orvalhado de suor Eis aqui o lugar generoso Onde só dormem os que sonham O tempo está bom gritemos com mais força Para que os sonhadores durmam melhor Envoltos em palavras Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento Filha e avó dos meus amores Da minha esperança A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Éluard (pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel; Saint-Denis, 14 de dezembro de 1895 - Charenton-le-Pont, 18 de novembro de 1952), poeta surrealista francês. Poema traduzido pelo poeta Antonio Ramos Rosa. In: "Algumas palavras".
Imagem: Wolf eyes por Leah Saulnier.
Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=303024 © Luso-Poemas
|
|