
Deixa-me cair
Data 02/12/2015 16:00:13 | Tópico: Poemas
| Deixa-me cair do coração, não me segures mais Deixa que me esborrache de facto Reutiliza os meus ossos para sabão A minha língua dá-a ao gato
Os meus dedos que nunca tocaram piano Oferece-os à caridade Para que peçam esmola nas feiras, nus e sem vaidade
Os meus olhos, queima-os num maçarico de gás butano Azuis de tanto terem olhado o céu Para que os pintores de futuros jamais se equivoquem E o azul verdadeiro do mar, por coisa nenhuma troquem
O meu sexo, conserva-o em formol Expõe-no no salão de chã da vila, ali junto aos bolos de creme E deixa que as madames o vejam encolhido como caracol E bebam a infusão como quem geme
Eu não fui nesta vida mais que prazer Onanismo, masturbação Mereço o desprezo da tua alma Que me deixes cair redondo no chão
E quando na calçada o resto de mim não for senão uma mancha De tanto ser calcada, espezinhada Lava-me na pedra com o sabão dos meus ossos Vira costas ao tempo E esquece com alento Que um dia vivi dentro do teu coração
José Ilídio Torres in: «Os poemas não se servem frios» Temas Originais 2010
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