
Curva-te temente, obstinado incréu
Data 19/10/2015 10:50:53 | Tópico: Poemas
| “ Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro, Eu digo que à charneca então chegamos, De plantas nua em seu espaço inteiro. Da dor a selva a cerca dos seus ramos, Como o fosso a torneia sanguinoso: Ali, rente co’a borda, os pés firmamos."
A Divina Comédia – Inferno – Canto XIV
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Tu, ó desavisado, traste que ora em vão caminha c’os passos insertos n’ escuridão quando vibrante voz, chamado d’arraiz; ela ressoou potente nos arcos celestiais - tão brilhante que era então a tua via! Toda abóboda agora te será descendente, meio-arco! Parco é teu tempo d’ eufemia - não te quedes dissimulado, ora-decadente, desertor da fé, esta hora soturna, mandrião. Embora ledo, nutre o sonho, entresilhado, quando é chamado teu nome obcecado, alvíssaras de ainda salvar-te negro avejão! Tempos passados e futuros são-te indistintos, não t’ escondas tentando em barras, debalde, prorrogar por mais um dia que sejam famintos, poupando minutos d’ agonia arrostas o alcalde
Vislumbres de chofre a realidade, nua-crua, que se apresenta diante de ti nesse relento, definhando sob essa mó de toda miséria tua, és poeira apenas partícula divisa ao vento, confundindo-se com o vermelho do por do sol. Curva-te temente, por fim rendido, obstinado incréu sem ter onde, agarra-te, em ânsias ate ao arrebol, és sombra, tremula apenas como flâmula ao léu
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