
PARIS
Data 03/10/2015 08:55:59 | Tópico: Poemas
| PARIS
as aves em paris especialmente aqui na rive gauche têm um canto distinto qual poeta que demanda a sua voz seu ritmo aquele timbre que dará ao poema a assinatura precisa que o cartório notarial todo e qualquer um sempre dirá ser a marca que distingue certo autor quem procura há quem diga sempre encontra mas as aves aqui nada procuram
estas ou outras aves não carecem de poetas poemas ou palavras sequer de vagamundos que lhes digam que as aves em paris da rive gauche têm um canto distinto simplesmente são o que são e basta não precisam nem de nome ou que cantam enfim não nada do que é humano lhes diz algo talvez milho atirado pelo chão ou um olhar vazio e sem destino
fantasia de aedo fantasia de quem busca nas aves o que não encontra entre os homens mas as aves sabem de cor edit piaf sabem de cor toulouse lautrec todas elas sabem da voz do gesto das palavras já ditas ou por dizer pelos poetas as aves sabem sabem até do silêncio que ancestrais árvores guardam nos meandros da sua própria seiva
mas o que sei eu nada em rigor nada nada de aves poemas ou palavras que queiram dizer mais do que nos dizem quando pelas paredes da memória escorrem para a boca ou para as mãos que as escrevem a mim só interessa que em paris minhas unhas como ao mário (1) sejam polidas sejam envernizadas pelo melhor verniz e que o jornal me diga de outro mundo e não do meu
Xavier Zarco
Notas: (1) SÁ-CARNEIRO, Mário de – Obra Poética, Publicações Europa-América, Mem Martins, s/d, p. 100.
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