
MADRID
Data 01/10/2015 09:17:00 | Tópico: Poemas
| MADRID
não seria preciso vir a atocha e chegar cerca ao bosque del recuerdo que antes tinha por nome los ausentes para saber como é tão precioso cada instante que temos a viver nenhum outro restaura o não vivido talvez por isso aqui me perca e sinta por entre as oliveiras e os ciprestes com o rumor das águas bem presente que urge beber meu tempo à saciedade
tudo enforma de efémero e imprevisto mesmo que a morte seja um recomeço não um fim mas o tempo que se perde esvai-se não regressa não é pássaro pousado à espera à espera que o escutemos não é possível tê-lo por exemplo guardado numa gaveta qual toalha de linho que se estende sobre a mesa pelos dias de festa não o tempo não se acomoda ao nosso tempo o tempo
é mesmo como a areia que nos foge entre dedos tem asas e esvoaça veloz que ao recordarmos desta nossa letargia do dia a dia nada resta e nada nos resta que não seja deixar em branco a página do instante e há que escrever na página do instante fazê-lo sempre e sempre intensamente porque fazê-lo sempre é viver mesmo mesmo que se repita o que o poeta
disse porque aqui estou cerca do bosque del recuerdo a vida é tão irreal como (1) a morte viro as costas e regresso à estação de comboios edifício alberto de palácio ferro vidro palavras e palavras na memória mas não era preciso vir aqui estar aqui no bosque del recuerdo para acender em mim quão urgente é fruir cada momento que me cabe
Xavier Zarco
Notas:
(1) BRITO, Casimiro de – Arte da Respiração, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, p. 37.
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