
COIMBRA
Data 30/09/2015 10:07:21 | Tópico: Poemas
| COIMBRA
os braços do poente ajeitam-se à almofada por onde os olhos pousam aguardam pela face do sol lá rente às aves da luz crepuscular uma aguarela nasce onde o poema encontrara a semente para o verso inaugural mas voam as palavras para dentro do gesto da paleta da própria imensa tela do mondego e verso algum deseja ser escrito
o vero verso é esta intensa luz que brota do silêncio murmuroso das águas que caminham para onde o sol se deita e o poeta se recolhe à cidade trazendo consigo as palavras que sobraram trá-las dentro da algibeira do próprio coração para que todas saibam do seu ritmo com que insano procura incendiar os pássaros que dormem nos seus versos
o largo da portagem chama ao fogo da memória os caminhos de miguel torga escuto-lhe os passos como se na invisível ramagem de um poema (1) e vou pela ferreira borges dentro em demanda do arcádia que não há engolido que fora pelo tempo resta-me o que ficou preso à memória qual manta que se tece sem saber como este aroma intenso do café
e vejo o rio o verso miguel torga e sento-me no arcádia no poema do garcía martín para esboçar (2) o regresso ao mondego onde uma barca cumpre com seu ofício de rasgar as águas também sinto que me cumpre cumprir o meu ofício e ser qual barca que navega mondego abaixo onde aves silhuetas dispersas na paisagem debicam o meu próprio coração
Xavier Zarco
Notas: (1) - TORGA, Miguel – Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 2.ª Edição, 2002, p. 606. (2) GARCÍA MARTÍN, Jose Luis – Treinta Monedas, Ateneo Obrero de Gijón, Gijón, Espanha, 1989, p. 64.
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