
Elegia da Paixão
Data 28/07/2015 13:13:09 | Tópico: Poemas
| E é como se o teu beijo tocasse no meu ventre e é como se a tua pele me vestisse de cetim e é como se o teu olhar num sopro de repente me levasse nas asas de um desejo sem ter fim.
E é como se o suor dos nossos corpos fosse um rio e é como se os nossos lábios fossem duas rosas e é como se a noite nos levasse num navio onde as nossas linguas se entrelaçam saborosas.
E é como se o teu toque esculpisse o meu regaço e é como se a minha cama fosse o teu abrigo e é como se o teu cheiro fosse o meu abraço nessas noites em que não podes estar comigo.
E é como se tudo, em torno, sem ti, fosse vazio e é como se em mim, esse vazio, fosse criança e é como se ao meu peito ausente, gelado e frio voltasse aquela angústia que vivi na minha infância.
E é como se os teus olhos fossem dois pedintes e é como se os meus fossem dois poços de amargura e é como se a minha dor já não tivesse ouvintes nesta tórrida procura de afecto e de ternura.
E é como se nas veias o sangue não corresse e é como se as viuvas pelos mortos não chorassem e é como se no peito o coração já não batesse e as andorinhas pelos Céus já não voassem.
E é como se afinal os poetas não escrevessem e é como se o destino já não quisesse o fado e é como se do fado as guitarras se perdessem e os povos não tivessem o destino já marcado.
E é como se o mar já não tivesse os horizontes e é como se o Céu se afundasse sem destino e é como se tivessem pela vida secado as fontes e eu voltasse aquela triste idade de menino.
E é como se a morte se espalhasse pelo ar e é como se a vida fosse um pássaro na mão e é como se estes versos que escrevo por te amar fossem a mais bela Elegia da Paixão.
Ricardo Maria Louro Em Sines Frente ao mar
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