
QUATORZE DE JULHO
Data 15/07/2015 16:46:29 | Tópico: Prosas Poéticas
| QUATORZE DE JULHO
Hoje, sem que nem para quê, desabei n'um choro convulso. Simplesmente não conseguia parar... Sem qualquer empatia pelo dramático, eu chorei sem pejo, sozinho.
Quando parei, a fronte estava cansada como se n'um esforço enorme.
De facto, fora um dia muito estranho: Havia acordado confuso, após uma noite cheia sonhos ruins. "Ao menos consegui dormir"-- pensei.
Ao longo do dia, pensei muito em minhas filhas, n'um sentimento angustiado, misto de saudade e perda.
Elas são crianças. Por trás de tudo isso, havia a lembrança de minha própria infância. Eu chorava lembrando e projetando a minha dor na dor d'elas.
Afinal, que dor era essa?
Tinha a ver com a exposição de si à maldade do mundo. Acho que era algo como não ter sido protegido o bastante.
E, por conseguinte, não ter sido amado o bastante.
Se, de facto, quem ama cuida, ser mal-cuidado denotaria falta de amor.
Ou será que nunca há amor o bastante?
Não é o excesso de cuidados capaz de corromper a percepção da realidade?
A gente tenta não pensar n'essas coisas... Sim, tenta esquecer o que não foi bom. Mas, às vezes, a memória é como uma lagoa cuja profundeza oculta podridão sob o espelho d'água que se azula ao céu.
E, sem que a gente entenda porquê, alguma força misteriosa revira às camadas decantadas do fundo, turvando tudo n'uma água escura e fétida.
Eu não sou Deus. Eu não posso livrar minhas filhas do mal. Eu não posso livrar sequer a mim do mal.
Mas eu rezo, embora saiba injusto que com tanta injustiça mundo afora possamos deixar de receber as nossas E carregá-las vida afora...
Sem embargo, não tenho certeza de que tenha sido um dia de todo ruim, pois, à noite, eu chamei minha filha caçula para conversar e pude explicar como me sentia e porque procedia como procedia.
Acho que ela entendeu.
Betim - 2015.
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